  Iluso de amor
     (Desires Captive)
   Penny Jordan




           Copyright: Penny Jordan
           Ttulo original: "Desires Captive" Publicado originalmente em 1983 pela Mills & Boon Ltd., Londres, Inglaterra
           Traduo: Rilda Lorch
           Copyright para a lngua portuguesa: 1983. Abril S.A. Cultural - So Paulo
           Esta obra foi integralmente composta e impressa na Diviso Grfica da Editora Abril S.A.
           Foto da capa: Bik Press

      Digitalizao: Mrcia Gomes
      Reviso: Cris Veiga


      Este Livro faz parte do Projeto-Romances,
      sem fins lucrativos e de fs para fs.
      A comercializao deste produto  estritamente proibida
         CAPTULO I

         - Sharon, minha querida, voc est maravilhosa. Muito parecida com sua me!
         Sob o orgulho das palavras do pai, havia uma nota de sofrimento, e Sharon sabia a razo.
         Por muito tempo eles tinham vivido afastados; praticamente desde a morte da me, quando ela era uma garota de doze anos e o pai um vivo inconsolvel de
quarenta. Mas agora tudo havia passado e os dois estavam novamente juntos, ambos encantados com a recm recuperada camaradagem.
         - Gosta mesmo? - perguntou, rodando diante do pai, a farta saia de musselina flutuando em torno do corpo. Aquele vestido custara absurdamente caro! Ela
o comprara em Londres, especialmente para aquela ocasio, quando comeavam as frias juntos. Entretanto, na vspera da partida para Roma, o sr. Wykeham a tinha avisado
que, de Roma, ele teria que ir aos Estados Unidos, e que s alguns dias mais tarde se encontrariam em sua villa no sul da Itlia.
         - Gosto muito! - respondeu Richard Wykeham. - Mesmo depois de saber quanto custou - brincou, olhando encantado para a filha, at pouco tempo atrs uma adolescente
rebelde, agora transformada numa mulher realmente deslumbrante. E tudo acontecera depressa demais. Sentia-se muito orgulhoso da filha, que quase perdera por causa
de sua amargura com a morte da esposa adorada. Ele tinha se esquecido de que Sharon tambm havia perdido a me, e agora seu arrependimento se revelava nos mimos
que lhe fazia.
         - Estou aborrecido por causa de nossas frias, querida. Mas, se tivermos sorte, ficarei s alguns dias em So Francisco. Voc, pelo menos, aproveitar a
noite de hoje. O signor Veldini parece ter convidado metade da sociedade de Roma.
         - Para impressionar voc, papai, e convenc-lo a investir nos negcios dele.
         A pele muito clara, os cabelos castanho-avermelhados e os belos olhos verdes, ela herdara da me, alm de um corpo to esguio que faria inveja a uma modelo.
Olhando-a, Richard Wykeham pensou que no era de admirar que estivesse sempre rodeada de admiradores.
         - No faz mal, papai - disse ela, enquanto saam do quarto do hotel. - No quero que fique lamentando a noite toda por no poder vir comigo. Esses dias
de lamentaes acabaram.
         - Nunca deveriam ter existido. Se eu no estivesse to envolvido em meus negcios...
         - Ns combinamos no comentar mais o passado - lembrou Sharon, os belos olhos verdes repentinamente sombrios, ao pensar em sua adolescncia solitria e
na dor que sentira ao perder a me e ser rejeitada pelo pai.
         Um automvel j estava  espera para lev-los  luxuosa villa do sr. Veldini, num dos subrbios mais elegantes de Roma.
         Enquanto atravessavam a cidade, ela olhou o rosto do pai. Tinha esperado com ansiedade por aquelas frias em companhia dele, a primeira que passariam juntos
depois da morte da me. O pai sempre lhe dera as melhores escolas, as melhores governantas, mas isso no bastava. Tentando chamar a ateno dele, ela se envolvera
em vrias confuses. S h um ano, desde seu vigsimo aniversrio, havia abandonado o grupo de jovens com que costumava andar. Eram jovens que, como Sharon, tinham
pais bem-sucedidos, e que agora estavam dispostos a gastar o dinheiro da famlia.
         "Quando os pais descobriro que os filhos precisam de amor, no de dinheiro?", pensou. A principal razo de sua rebeldia era realmente obrigar Richard a
prestar ateno nela. E foi preciso que um de seu grupo morresse vitimado pelas drogas para que ela percebesse o que lhe estava acontecendo e forasse uma aproximao
com o pai. Nem acreditou quando ele correspondeu.
         Naqueles ltimos doze meses tinha havido menos visitas a lojas de roupas e menos festinhas malucas de fim de semana. Em vez disso, cada vez mais, Sharon
se envolveu nos negcios do pai. A poltica de suas companhias era dar um timo atendimento social aos empregados e, encorajada pelo pai, Sharon se dedicou  organizao
de um departamento destinado a dar assistncia s famlias onde um dos pais faltava. Aquilo falava tanto ao seu corao que ela se atirou ao trabalho com todo amor.
         Sabia que o pai estava muito satisfeito. Muitos amigos dos velhos tempos a criticavam, lembrando da antiga Sharon, sempre pronta para os programas mais
loucos, sempre a mais animada das festas.
         Mas isso tinha sido antes dela perceber que estava andando numa corda bamba. Em sua antiga roda, era comum o uso de bebidas e drogas, embora Sharon sempre
tivesse evitado se envolver com isso; no por objeo moral, mas simplesmente por ver seu efeito em outros e no ter a menor vontade de perder o autocontrole. Uma
coisa que a assustava era a perda de seu poder de deciso.
         Talvez por isso, tambm nunca se envolveu com os rapazes que a assediavam. Nenhum deles sabia que ela ainda era virgem. Cada um pensava que era o nico
a no ter conseguido uma relao mais ntima. Era uma lenda que ela ajudava a alimentar, sabendo que, assim, eles no comentariam nada, com medo de serem ridicularizados.
         Nem mesmo o pai sabia que os boatos que corriam sobre ela nas colunas sociais no passavam mesmo de boatos, e Sharon sentia timidez em tocar no assunto.
Mas achava que ele estava comeando a imaginar a verdade. Na semana anterior, surpreendera um brilho divertido nos olhos de Richard, quando foi obrigada a descer
de um txi, para escapar dos braos do filho de um adido da embaixada da Frana...
         Sharon queria que o pai guardasse uma boa lembrana dela naquela noite. Tinha se vestido com todo o cuidado para a festa. O vestido de musselina branca
era bem decotado; usava os diamantes que haviam pertencido  me: brincos, colar e pulseira, do branco mais puro, cintilando contra a pele de cetim; tinha feito
para a ocasio um coque frouxo, e fios de cobre dos belos cabelos escapavam na nuca.
         A villa dos Veldini estava feericamente iluminada, e um emprega do uniformizado abriu a porta do carro, quando chegaram.
         - Muito fin-de-siecle - sir Richard comentou baixinho para filha, enquanto subiam a escadaria de mrmore.
         Evidentemente, o sr. Veldini estava  espera deles, pois apareceu na porta no mesmo instante, cumprimentando Richard Wykeham com extrema amabilidade. Depois,
virou-se para Sharon.
         - Esta linda moa  sua filha? Deve se orgulhar muito dela!
         O elogio era tipicamente italiano, e Sharon sorriu para ele. Mas outra pessoa atraiu seu olhar: um homem alto e moreno, que a observava com interesse. Estava
s e, mesmo a distncia, ela percebeu que era mais alto do que o pai, e provavelmente italiano, por causa da pele bronzeada e dos cabelos escuros. Mas os olhos eram
cinzentos e brilhavam intensamente.
         - Paolo, no vai nos apresentar? - pediu ele, que se aproximara, sempre olhando o rosto de Sharon.
         A seu lado, o pai assistia  cena, aparentemente divertido.
         - Se a signorina permite? - disse o sr. Veidini.
         Quando ela fez um leve sinal de cabea, ele ps a mo no brao do estranho, que sorria ironicamente, os olhos cinzentos ligeiramente apertados, como se
percebesse a preocupao do anfitrio em agradar a moa.
         - Nico, voc vai ser o homem mais invejado da festa. Todos querem conhecer a srta. Wykeham.
         - Sharon - corrigiu o pai. E tenho certeza de que o sr....
         - ...Doranti - completou Veldini. - Nico tem uma av inglesa e  por isso que fala to bem sua lngua.
         - Espero que o sr. Doranti me perdoe se eu deixar minha filha algum tempo na companhia dele, enquanto discuto aqueles ltimos problemas com voc - disse
o sr. Wykeham.
         - S se demorarem bastante para que eu possa danar com ela - disse Nico Doranti, parecendo muito satisfeito.
         - Infelizmente o signor Veldini se enganou: no tenho mais av, ela morreu h alguns anos - contou a Sharon, enquanto a acompanhava para a pista de dana.
- Mais gosto ainda mais dela agora, pois me ensinou a falar ingls e, assim, posso lhe fazer companhia. Repare como meus compatriotas me olham. Esto me odiando!
         Sharon no pde deixar de rir. Tudo aquilo era um absurdo. Entretanto, simpatizou com ele, mesmo com aquela cantada violenta.
         - Ah, agora est melhor. - disse Nico. - Quando entrou aqui, vi que tinha sombras nesses lindos olhos verdes. E eles nunca deviam ficar sombrios..
         O homem era muito perspicaz, reconheceu Sharon; e, tambm, muito msculo. Olhou para ele. Tinha um perfil forte e clssico e uma fora que a impressionou.
Era diferente dos outros que conhecia: tinha algo de misterioso. Ficou satisfeita por ele a escolher entre todas as outras mulheres naquela festa.
         - Est h muito tempo em Roma? - perguntou ele, mas acrescentou logo: - No, no deve estar; seno, eu j teria sabido.  bonita demais para chegar a Roma
e ningum saber...
         - Chegamos esta manh e vamos viajar amanh. Meu pai vai para So Francisco, nos Estados Unidos.
         - E voc?
         Sentiu de repente uma profunda tristeza, e seus olhos ficaram cheios de lgrimas. "Estou, sendo tola", pensou, "mas esperava tanto dessas frias!"
         - Venha - convidou ele, segurando seu brao com mos fortes, mas delicadas. - Vamos at o jardim, passear um pouco, e logo vai se sentir melhor..
         - Pode me perdoar por ser uma companhia to desagradvel?
         Ele parecia compreend-la to bem que ela no sentia a natural reserva como com os outros homens.
         A perfumada e escura noite italiana os envolveu. A sensao tola de fragilidade parecia aumentar dentro dela, estimulada pelo perfume das rosas e pela presena
forte de Nico. De repente, ele parou e, virando-se para ela, levantou seu queixo.
         - Lgrimas? - murmurou, tirando um leno do bolso e enxugando seu rosto. - Posso saber por qu?
         - No h uma razo - respondeu ela, a voz um pouco hesitante, mas, em vez de embaraada, sentia por ele uma sbita confiana. -  que meu pai e eu tnhamos
planejado passar as frias juntos. Em nossa villa, no sul da Itlia. E agora ele precisa voar para So Francisco. Parece uma bobagem, mas...
         - Sim...? .
         Ela se calara, sem coragem de continuar, mas o interesse dele a encorajou.
         - Ns tivemos pssimas relaes por algum tempo - explicou. - E agora tnhamos acabado de nos reconciliar.
         Baixou a cabea, as longas pestanas cobrindo os olhos magoados, ela mesma surpresa por desabafar com um estranho.
         - E tem um receio de que ele, afinal, no se interesse tanto pela sua companhia? - perguntou Nico, mais uma vez surpreendendo-a com sua incrvel compreenso.
         Parecia um absurdo! Como aquele homem podia adivinhar o que estava sentindo, seus receios, suas mgoas? Sentia-se terrivelmente vulnervel, embora fosse
reconfortante descobrir algum capaz de entend-la to bem.
         - Est surpresa porque percebi to facilmente o que se passa em seu corao? Parece que entre ns existe um entendimento espontneo. Tenho certeza de que
j notou isso.
         Seria mesmo? O corao de Sharon comeou a bater mais forte. Realmente, no momento em que olhou para ele, teve a sensao de j t-lo visto. Ou estaria
sendo levada pela magia daquela noite? Afinal, nada sabia sobre ele.
         "Mas o que precisava saber?", uma vozinha segredou em seu ntimo. Sabia o que sentia, cada vez que ele a olhava, como seu corao disparava cada vez que
a tocava.
         - Sharon - sussurrou ele, e ela teve a impresso de estar flutuando.
         Num gesto de inconsciente provocao, umedeceu o lbio com a pontinha da lngua, e o olhar de Nico mostrou que ele no ficara imune. Uma onda de excitao
envolveu os dois, e Sharon fechou os olhos, chocada com a vontade que sentia de que Nico a tomasse nos braos e a beijasse at deix-la sem flego.
         Sua fraqueza devia ser evidente, porque ele a segurou pelos braos beijou de leve cada face e aninhou docemente seu corpo nos braos, sem aceitar o convite
dos lbios entreabertos. Sharon sentiu uma onda de respeito por ele. Como teria sido fcil rejeit-lo, se tivesse reagido como seus outros admiradores!
         Inconscientemente, ela o havia testado e precisava reconhecer que ele passara com louvor. Qualquer outro homem se aproveitaria de sua vulnerabilidade, tanto
emocional quanto fsica, mas Nico pressentira que aquele no era o momento certo para que o desejo tomasse conta deles. Sharon agora no precisava de paixo, e,
sim, de uma enorme ternura. Sentia-se um pouco assustada com a facilidade com que ele adivinhava seus mais ntimos pensamentos. A atrao espontnea era por si s
suficiente para assust-la; nunca havia experimentado isso com qualquer homem! E parecia tambm haver entre eles uma harmonia to grande que no precisavam de palavras!
         - Vamos entrar - disse ele - porque seu pai  capaz de mandar uma expedio de salvamento para encontr-la.
         Caminharam devagar de volta para a casa. Sharon no se lembrava de j ter sentido uma felicidade to grande.
         - Onde fica a sua villa? - perguntou ele, de repente.
         Ela contou, e depois descreveu o lugar, sem lhe fazer um convite formal, pois entre eles no haveria necessidade disso. Tinha baixado suas defesas diante
de Nico, no sentindo necessidade de adotar subterfgios ou falso orgulho.
         Um pouco depois, quando ele a deixou ao lado do pai, sentiu-se curiosamente abandonada. Richard Wykeham olhou-a com preocupao. No viu mais Nico at o
momento em que ela e o pai deixavam a festa, e, mesmo assim, rapidamente. Estava parado ao lado de um luxuoso Lancia negro, o cotovelo apoiado na porta aberta do
carro, e olhava pensativo a escurido da noite. Os faris o iluminaram e, surpresa, Sharon notou uma expresso de intenso dio e amargura naquelas belas feies.
Sentiu um choque violento: embora ele olhasse para ela, no havia nenhum sinal de ternura em seu rosto.
         Repentinamente, ela se deparou com o fato de que eram estranhos um para o outro e que nada sabia sobre sua vida; nada, sobre a razo daquele olhar sombrio
e assustador.

         Sharon j estava h trs dias na villa, um lugar lindssimo, apesar de um pouco isolado. Naqueles dias no era no pai que pensava, mas em Nico Doranti.
         O casal que tomava conta da casa era eficiente, mas falava pouco. Enquanto esperava a volta do pai, Sharon cuidava do bronzeado adquirido durante um cruzeiro
feito pela Grcia, h alguns meses. Tinha cedido aos insistentes convites de um velho amigo, para fazer um cruzeiro pelas ilhas gregas em seu iate. S ao chegar
a Atenas, descobrira que os convidados eram casais e que devia ser o par de Jean-Paul. O passeio foi um desastre, culminando com uma cena desagradvel entre os dois,
quando o iate estava ancorado ao largo de Corfu.
         Todos tinham ido a terra, e ela ficara sozinha tomando banho de sol. Pelo menos, pensava estar sozinha, at que, sorrateiramente, Jean-Paul se aproximou
e desamarrou o suti de seu biquni. O susto que levou foi to grande que ela se ergueu, e nesse exato momento um reprter bateu uma foto, usando uma teleobjetiva.
Sharon ficou mortificada ao ver seu retrato numa coluna de mexericos. A foto no estava muito ntida, por causa da distncia, e, assim, sua expresso de revolta
no era visvel, mas mostrava claramente os seios firmes e redondos. A legenda da foto era: "Sharon Wykeham, que faz um cruzeiro com amigos, incluindo o playboy
internacional Jean-Paul Calours".
         Seu pai tinha comentado que o reprter s estava fazendo seu trabalho, mas Sharon ficou profundamente ofendida. Aquilo foi a gota d'gua para afast-la
definitivamente de seu antigo grupo. Ela mesma se surpreendeu por sentir to pouca falta deles. Gostava muito mais da vida que levava agora.
         Sentou-se na areia e amarrou a saia que acompanhava o biquni verde-esmeralda, enquanto olhava sonhadora para o mar  sua frente. No gostaria que Nico
a tivesse conhecido antes. As outras moas de seu grupo teriam se insinuado imediatamente para ele, fazendo comentrios picantes e oferecendo os lbios midos sem
qualquer inibio.
         Como ele reagiria se estivesse no lugar de Jean-Paul? Algo lhe dizia que, nesse caso, aquela foto nunca chegaria aos jornais. Por outro lado, Nico nunca
agiria como Jean-Paul. Primeiro, porque no precisava disso para ter uma mulher; depois, porque no era do tipo que gostava de exibir suas conquistas. Subitamente
Sharon sentiu o rosto em fogo, e no por causa do sol. Estava imaginando como seria ser possuda por Nico.
         Olhou para o cu j avermelhado pelo entardecer. Era hora de sair da praia e subir pelas rochas at a villa, que ficava l no alto. Comeou a reunir suas
coisas, e, olhando distrada para a casa, sentiu um choque ao ver um homem vindo em sua direo. Vestia shorts de brim muito gasto e, no peito moreno, uma corrente
de ouro com uma medalha que refletia a luz do sol.
         Nico!
         - Na villa me disseram que encontraria voc aqui - explicou, sorrindo.
         - Veio para me ver? - perguntou, sem querer acreditar.
         Ele deu uma risada.
         - Lgico que no. Posso imaginar mais de dez razes para eu guiar esses quilmetros todos e chegar aqui no meio de uma semana de trabalho. Mas todas seriam
mentira. - Olhou-a com aquele seu jeito nico, que mexia com ela. Examinou-a com admirao de alto a baixo. Por fim, comentou: - Voc me surpreende. Numa praia deserta
como essa, eu no pensaria que... - Fez um sinal com a cabea, indicando o biquni e a saia - ...que todo esse aparato fosse necessrio, apesar de encantador.
         Sharon no entendeu imediatamente, e, quando o fez, colocou nervosa os culos de sol, para que ele no visse sua confuso. Ele esperara encontr-la nua!
         Comeou a andar em direo  casa, surpresa ao perceber que no conseguia pensar com clareza quando ele estava por perto.
         - Voc vai... pretende ficar muito tempo?
         - Um dia, talvez dois. Fiz a reserva no hotel, se  que se pode chamar aquilo de hotel. Voc conhece, em San Lorenzo?
         - Sim. Mas voc poderia se hospedar na villa.
         - Acha que seu pai aprovaria?
         Novamente, Sharon ficou chocada com a forte reao de seu corpo ao quadro que lhe veio  mente: os dois sozinhos, depois que Maria e o marido voltavam para
casa,  noite. Poderiam jantar no terrao que dava para o mar, apreciar as estrelas e depois...
         Sentiu a boca secar e os bicos dos seios enrijecerem, e viu que Nico notou. Agora ele olhava para o busto redondo e perfeito, que o suti do biquni no
escondia direito. Por um louco instante, pensou que ele ia tir-lo e cobrir com as mos morenas os seios palpitantes. Estremeceu, agitada. Mas o que estava havendo
com ela? Ser que Nico adivinhava seu pensamento?
         - Maria pediu para eu avisar que vai preparar o jantar um pouco mais cedo hoje, porque amanh  seu dia de folga e quer ter tempo de preparar uns pratos
para levar para a filha. Eu gostaria de sugerir que jantssemos juntos - disse, sorrindo para ela, os dentes muito brancos sobressaindo no rosto bronzeado, - mas
a viagem at aqui me deixou exausto. Agora, se me convidar para o caf da manh, eu apreciaria muito, e depois podamos dar um passeio de automvel. O que acha?
         Disfarando o desapontamento, Sharon teve que reconhecer que ele fizera a longa viagem para v-la e que queria ficar com ela no dia seguinte. Sorriu, um
pouco mais consolada. De repente, deu um grito, e teria cado, no fossem os braos protetores de Nico, que a ampararam.
         O contato na pele nua dele contra seu corpo quente deixou-a um pouco zonza, mas a dor que sentia era verdadeira.
         - O que foi?
         - Pisei numa concha quebrada. No foi nada.
         - Me deixa ver.
         Ele se abaixou e pegou o p ferido. Ela teve que se apoiar em seus ombros. Nico tinha a elasticidade de um tigre, pensou, e provavelmente era igualmente
perigoso. Observou os cabelos escuros e ligeiramente ondulados e as mos capazes que examinavam seu p.
         - Parece que est tudo bem. Se lavar e desinfetar o corte quando chegar em casa no vai ter problemas. Parece que no ficou nenhum pedao de concha dentro.
Mas, para ter certeza...
         Antes que ela percebesse o que ele estava fazendo, Sharon sentiu o calor dos lbios no p e estremeceu. Era incrvel que aquilo pudesse lhe causar uma sensao
de tamanho erotismo!
         - Sharon!
         Nico levantou a cabea, a mo subindo devagar do tornozelo at o joelho dela. No momento seguinte, estavam nos braos um do outro e ele a beijava com sofreguido,
acariciando suas costas e prendendo-a bem junto ao corpo. Ela se sentia sem vontade prpria, completamente dominada pelas emoes que aquele desconhecido despertava.
         Quando ele se afastou, Sharon teve uma sensao de perda e, no fundo do corao, soube que, se Nico pedisse para fazerem amor naquele instante, se entregaria
sem reservas e sem hesitao. Desde o primeiro momento em que o viu, ela sabia! No, Nico no era um estranho. Era como se tivesse esperado por ele toda a vida,
como se o esperasse h mil anos! Quis perguntar a ele se sentia a mesma coisa, mas no teve coragem.
         No entanto, Nico j havia recuperado o controle e ficou olhando enquanto ela acabava de pegar suas coisas.
         - Ciao - disse, carinhoso. - No se esquea, venho para o caf amanh. Algo me diz que voc deve ficar diabolicamente atraente servindo suco de laranja
de manh...
         Havia alguma ironia em seu jeito de falar, e Sharon pensou que talvez ele achasse que costumava dormir com homens e tomar caf em companhia deles. Mas,
se achasse isso, provavelmente no teria recusado seu convite de se hospedar na villa. Tinha certeza de que a desejava; e tambm conhecia os homens italianos, com
todo o seu machismo. Mas Nico a estava tratando com enorme cuidado, como se ela fosse uma porcelana frgil; e Sharon gostava disso. Gostava de suas reticncias,
tanto quanto de sua evidente virilidade. E desconfiava de que por trs daquele controle de ferro havia um homem ardente e apaixonante. Era tambm evidente que no
a considerava s um programa para uma noite.
         Teve vontade de dizer que estava feliz por isso: por saber que ele a via e a respeitava como uma pessoa, no simplesmente como a filha de Richard Wykeham,
o milionrio!
         Mas, com certeza, Nico sabia como se sentia, pensou. Como poderia no saber? No sorriso enigmtico que ele lhe dera, havia essa certeza. E tambm no doce
beijo de despedida.
         Com o corao cheio de sonhos, ela foi para casa, j esperando com ansiedade pelo dia seguinte.


         CAPTULO Il

         Quando acordou, Sharon sentiu-se alegre pela primeira vez desde que chegara  villa. Tomou rapidamente uma ducha, vestiu uma camiseta de malha branca e
uma cala de brim cqui, pegou um biquni e uma toalha combinando e colocou tudo numa sacola.
         No tinha a mnima idia dos planos de Nico para o dia, mas no queria ser surpreendida para uma sugesto para um mergulho sem estar preparada. Sabia que
uma moa mais desinibida provavelmente no se preocuparia com isso e ficaria encantada em exibir o corpo nu diante de Nico Doranti, mas ela no se sentiria bem.
         Ele chegou exatamente no momento em que Maria estava levando a bandeja com o caf para o terrao. Sharon escutou o barulho do motor e atravessou a casa
at a porta da entrada; quando a abriu, Nico estava saindo de um Mercedes conversvel vermelho. Antes que ele a visse, parecia seriamente preocupado com alguma coisa.
Teve tempo de observ-lo bem, com a camisa de malha preta moldando o corpo atltico e bem-feito. Vestia jeans preto, muito justo, que marcava as pernas fortes e
musculosas. Sentiu-se intensamente atrada por ele, e mais uma vez surpreendeu-se com sua reao. A pele bronzeada que aparecia sob a camisa desabotoada no peito,
onde pendia um medalho de ouro, a fora daquele homem alto. Tudo agia sobre ela poderosamente. Quando ele a viu, sua expresso mudou imediatamente: olhou-a com
admirao de um macho avaliando sua fmea.
         - Se eu adivinhasse que voc ficava to linda de manh, no teria voltado para o hotel ontem  noite - disse, com malcia nos olhos cinzentos, enquanto
a segurava pelos ombros e a beijava de leve nos lbios.
         Sharon gostaria de saber se ele estava sentindo seu perfume da mesma maneira que ela sentia a colnia dele. Nico cheirava a banho, sabonete e loo aps-barba,
e ela teve o louco desejo de dar um beijo em seu pescoo.
         - O caf j est pronto. Voc calculou o tempo direitinho.
         - No concordo - respondeu ele, olhando-a nos olhos, e fazendo com que seu corao disparasse.-- Preferia ter chegado antes e encontrar a Bela Adormecida
ainda esperando pelo beijo do prncipe.
         Era ridculo ser afetada por este jogo ingnuo de palavras. Muitas vezes isso tinha acontecido com ela, sem que provocasse nenhuma reao. Por que tinha
que ser diferente com Nico? No sabia. Tudo que sabia era que a idia de ter Nico em seu quarto fazia com que imaginasse uma cena intensamente ertica que rapidamente
tentou afastar da cabea, enquanto o guiava at o terrao.
         Ficou contente por ter perdido tanto tempo arrumando a mesa, porque notou que ele olhou para tudo com interesse e admirao. Os pezinhos quentes estavam
num cestinho forrado por um guardanapo bordado; a gelia de damasco, num pratinho de cristal verde, contrastando com a loua enfeitada de botes de rosa; a toalha
era de linho rosa, bordada com os mesmos motivos da loua. Tudo mostrava o refinamento da vida de Sharon e do pai.
         Eles mais pareciam um plcido casal, tomando o caf da manh, pensava ela, quando, meia hora depois, servia mais uma xcara a Nico. Reclinado na cadeira,
ele admirava a bela vista.
         - Quais sos seus planos para hoje? - perguntou Sharon. - Quer que eu faa um lanche para um piquenique?
         - Se no for muito trabalho, seria bom. - E acrescentou com malcia: - Embora comida seja a ltima coisa que me interessa, agora...
         Embaraada, Sharon tirou a mesa e colocou a loua na mquina de lavar.
         - Sharon!
         Ela quase deixou cair a faca com que fazia os sanduches, tal o susto. Quando olhou para o rosto dele, sentiu uma vaga apreenso, pois parecia angustiado,
como se algo o preocupasse seriamente.
         - No sei se a idia desse piquenique  boa - disse Nico, agora de costas para ela, sem ver a decepo que estava causando.
         O que teria acontecido? Ser que estava arrependido de convid-la para passarem o dia juntos? Ser que tinha descoberto que ela no era a garota que pensou
que era quando a conheceu em Roma?
         - Se no quer mais, est bem - respondeu, tentando fazer com que a voz soasse calma. - Mas pensei que dvidas de ltima hora no fizessem o seu gnero.
         Subitamente, os dois se olhavam como dois estranhos. Notou que estava profundamente irritado com seu comentrio. Uma nuvem negra num cu azul!
         - Obviamente no  o seu - foi a resposta agressiva. - Costuma tomar decises assim impulsivamente? Ou  s com os homens?
         Falou para ferir, e atingiu o alvo. Como Sharon poderia dizer agora que nunca agira assim com nenhum outro? Que era o primeiro por quem se sentia atrada?
         Ele voltou para a sala e ela foi atrs, sabendo que o dia estava estragado.
         - Acho melhor desistirmos - disse Nico, parando subitamente diante de uma foto, num porta-retratos sobre uma mesa.
         Na foto, Richard Wykeham sorria, abraado a um velho amigo. Nico olhava com tal interesse, o rosto to contrado, que ela resolveu explicar:
         - Meu pai e um amigo. Ele... ele morreu no ano passado.
         Sua voz tremeu ligeiramente e ela mordeu o lbio. No conhecera bem John Hunter, embora ele e seu pai tivessem sido muito amigos; mesmo assim, sua morte
a deixara comovida. Tinha sido seqestrado e assassinado pelos seqestradores. Ainda agora, Sharon achava difcil pensar no sofrimento pelo qual ele devia ter passado.
Nunca chegou a comentar com o pai, mas sentia um medo doentio de ser seqestrada.
         Talvez isso tivesse alguma ligao com a morte da me. Estava no colgio interno e no sabia de nada. Dois estranhos, que mais tarde descobriu serem a secretria
do pai e seu assistente pessoal, a levaram embora da escola sem nenhuma explicao e depois a informaram da morte da me. O duplo choque deixou nela uma marca que
nunca desapareceu.
         - Ele foi seqestrado por terroristas - disse, com dificuldade, sentindo voltar toda a aflio daquela poca.
         - Trgico - comentou Nico, secamente.
         - Oh, no sei - respondeu Sharon, procurando desanuviar o ambiente. - Ser que essa no  a fantasia sexual de muita gente?
         Era o tipo de comentrio para ser feito entre seus velhos amigos, e no passado ela o usara para esconder seus sentimentos, sem se importar com o que pudessem
pensar. Mas agora se importava, e imediatamente sentiu uma ponta de angstia, ao ver o olhar duro que Nico lhe deu.
         - Nico?
         Morria de arrependimento por ter dito uma coisa que no sentia, mas seu orgulho no permitiu que confessasse. De repente, ele sorriu, tornando-se outra
vez o homem encantador e mundano que ela conhecia.
         - Acho que acordei com o p esquerdo - disse, como se estivesse se desculpando. - ...ou, quem sabe, no dormi na cama certa. Olhou o relgio. - de quanto
tempo precisa para ficar pronta?
         Estranho! H menos de dez minutos, ele queria desistir do passeio.
         Mas Sharon estava feliz demais para se importar com esses detalhes.
         - Dez minutos.
         Ficou pronta antes disso. Pouco depois, Nico guardava a cesta de piquenique na mala do Mercedes e abria a porta para que ela entrasse.
         Tinha a estrada praticamente s para eles e Sharon se recostou no banco, gozando a cadeia da brisa que despenteava seus cabelos, sentindo o cheiro agradvel
de mato. Passaram por oliveiras to velhas e retorcidas que provavelmente j deviam ser velhas na poca do imprio romano.
         Pararam bem no alto da montanha. L embaixo, o mar brilhava intensamente azul; no horizonte, onde se fundia com o cu, tinha um tom levemente lils. Sentada
na grama, as pernas encolhidas, o queixo apoiado nos joelhos, Sharon admirava a paisagem.
         Meia hora atrs, Nico tinha sado da estrada e estacionado naquele lugar lindo e isolado. Estava agora deitado a seu lado, olhando o cu. Uma brisa suave
soprava. Ela devia sentir-se em paz, depois do lanche, mas, ao contrrio, sentia uma incrvel tenso. Aquele homem a perturbava intensamente; mesmo sem olhar para
ele, estava consciente de cada movimento seu. Ele havia tirado o jeans e a camisa, ficando de calo, e Sharon precisava se esforar para no ficar olhando para
o corpo dele.
         - Por que no veste o biquni? - perguntou ele, de repente. Ela queria, mas algo a impedia. Sentia-se inibida em exibir o corpo para Nico.
         - Voc est parecendo uma virgem crist que preferia ser atirada aos lees do que ceder ao conquistador romano.  uma experincia nova - continuou, apoiando-se
no cotovelo, para olhar melhor para ela.
         Sharon baixou o olhos. Ah, se ele soubesse que era mesmo virgem! Se ao menos tivesse alguma experincia, saberia o que fazer para reagir ao impulso de se
atirar nos braos dele.
         - Por que a virgindade  uma coisa que abala tanto os homens?
         - Olhando para voc agora, acho difcil imaginar que outro j tocou esse corpo - murmurou, pensativo. - Puxa, devo estar perdendo o juzo!
         Inclinou-se para ela e abraou-a. Sua voz estava insegura e grave, quando ficou bem perto, os lbios quase tocando os dela:
         - Algo me diz que vou me arrepender, mas no momento no posso resistir... Antes de tudo, me sinto macho; e, depois, um ser humano que deveria usar a razo.
O que esses belos olhos esto pedindo? Que eu a poupe? Ou... isso?
         Sharon sabia que as mulheres no tinham nenhum segredo para Nico, mas ele deveria ter se enganado completamente com ela, porque o beijo ardente que lhe
dava agora e o desejo que seu corpo transmitia a inibiram, em vez de excit-la. Percebia uma imensa amargura nele, um dio que ela no entendia. Pela primeira vez,
no parecia preocupada em respeitar sua sensibilidade, deixando claro seu desejo animal. Por qu? Sharon no compreendia aquela inesperada exploso de emoes.
         Subitamente gelada, soube que ele s queria o gozo do sexo, sem nenhum envolvimento sentimental. Arrependeu-se de ter ido at aquele lugar deserto e tentou
se libertar, dominada pelo pnico. Afinal, o que sabia sobre Nico? Quem era ele na verdade?
         Como se adivinhasse seu medo, ele afrouxou o abrao e parou de beij-la. Desculpou-se imediatamente, murmurando em seu ouvido:
         - Desculpe, cara. Fui muito impulsivo, meu desejo me deixou descontrolado...
         Apesar do tom carinhoso, Sharon teve a impresso de que ele estava representando um papel, falando coisas que no sentia. Mas a dvida morreu logo, quando
Nico escorregou a mo por baixo de sua camiseta, tocando o seio pequeno e redondo, enquanto os lbios roavam de leve os dela, sem a mesma avidez de antes.
         Quem sabe, tinha imaginado a raiva dele. Quem sabe, era apenas desejo o que tinha visto em seus olhos e que a assustou tanto. Conhecia to pouco sobre as
emoes que dominavam os homens! E obviamente ele no era homem que recalcasse sua sexualidade.
         A reao de seu corpo aos carinhos a assustavam, e tentou recuperar o autocontrole.
         - Acho que devamos ir andando - disse, um pouco trmula. - Eu...
         Nico olhou o relgio e depois pareceu examinar a paisagem em torno deles. O cu estava azul e sem nuvens e a estrada deserta.
         - Ainda no...
         Quando Sharon insistiu, ele a ignorou, inclinando a cabea e beijando seus lbios. Depois, foi abaixando a cabea, at a boca tocar a pele entre os seios,
fazendo com que ela sentisse um arrepio de prazer.
         Com muito cuidado, ele soltou o suti e admirou os seios firmes, com bicos rosados.
         - Nico...
         - J sei. No, aqui. Mas voc torna as coisas muito difceis para mim. Muito difceis... - Enquanto falava, passava os lbios quentes pelos seios palpitantes,
parando um instante ao sentir que ela estava quase perdendo o controle.
         Sharon s queria prend-lo bem junto ao corpo, mas sua timidez no permitia, e continuou passiva, at que, inesperadamente, Nico se levantou e praticamente
arrastou-a at o carro.
         Ela no teve tempo para protestar, e se viu sentada outra vez no Mercedes, esperando por ele. S ento, percebeu um velho Land Rover se aproximando.
         O carro parou e trs pessoas saltaram, uma moa e dois rapazes, vestindo velhos jeans e blusas encardidas, todos os trs carregando armas e apontando para
eles.
         Como num pesadelo, Sharon ficou paralisada olhando os trs avanarem em sua direo.
         - Saia do carro! - ordenou a mulher, com uma voz rspida e amedrontadora.
         - Nico! - chamou, como se a simples meno do nome dele pudesse livr-la do perigo. Mas sentiu o sangue gelar, quando viu sua expresso dura.
         - Obedea, Sharon.
         - Mas, o... - Ser que ele no via que, se ela sasse do carro, ficaria mais vulnervel?
         - Olhem s para ela! - a moa caoou. - Ainda no conseguiu acreditar. Deve ter feito um timo trabalho para convenc-la, Nico. Nem agora, ela consegue
entender a verdade. Sua idiotinha! Nico  um de ns. E no vai ajud-la.
         Sharon olhou para ele, e percebeu desesperada, que era verdade. Nico sustentou seu olhar, e nesse instante ela teve certeza de que tudo, cada mnimo detalhe,
tinha sido planejado. Cada palavra! Cada carcia! E ela cara na armadilha, feito uma boba. No s isso, mas tambm tinha feito planos romnticos, acreditando que
entre eles havia algo maravilhoso e nico! Sua cabea rodava, ao pensar que quase se entregara a ele. Felizmente: escapara dessa ltima humilhao! Pensava nele,
ao lado daquela moa morena, de grandes olhos negros, caoando de sua virgindade perdida.
         Como uma sonmbula, Sharon abriu a porta do carro e saltou. Pisou no cascalho e tropeou. Teria cado se Nico no a amparasse, mas logo o afastou num gesto
de rebeldia, procurando disfarar a profunda mgoa que sentia e transformar em dio toda a sua dor.
         - No encoste em mim!
         A outra moa deu uma risada.
         - Puxa, Nico, voc deve ter estragado os sonhos da mocinha! A idiota pensou que estava apaixonado por ela, e tudo que queria era o dinheiro do pai. Acha
que ele vai pagar o resgate depressa?  bom no demorar muito. O pessoal de Roma avisou que est precisando urgentemente de dinheiro para comprar as armas, e tambm...
- Parou de falar, quando Nico segurou seu pulso com brutalidade.
         - Cale essa boca, Olvia!
         - Por qu? Quer ter certeza de que sua amiguinha no vai repetir o que conversamos? Ou est comeando a perder a f em nossa causa? Voc nos deixou dois
dias esperando aqui.
         - Eu me atrasei - explicou Nico, com um leve encolher de ombros.
         A desculpa no pareceu satisfaz-la.
         - Com o qu? - perguntou a moa, com o cenho carregado.
         - Em Roma, fui atrasado l. - Depois, olhando para ela com firmeza: - Sou o chefe aqui, Olvia, voc no tem que discutir minhas decises. Agora, vamos
pr a moa no jipe. J perdemos tempo demais.
         Olvia encostou a arma nas costelas de Sharon.
         - Ande!  bonita, mas muito frouxa - comentou, ao perceber que Sharon tremia. - Olhem s como treme! Essa arma  muito sensvel, garota. O tremor do seu
corpo pode ser suficiente para...
         - Ela no serve para ns se morrer, Olvia - disse Nico, com frieza. Ele mudara tanto que Sharon mal o reconhecia. Aquela indolncia e o sorriso charmoso
tinham desaparecido; e, em seu lugar, havia uma expresso ameaadora e um autocontrole to grande que a deixavam arrepiada. Seus traos pareciam agora talhados em
bronze, cada movimento cuidadosamente controlado.
         - No, se morrer - concordou Olvia, olhando o rosto lvido de Sharon. - Mas o papai pagar o resgate mesmo se a gente no entregar a filhinha querida em
boas condies. Escolheu muito bem, Nico; vamos ver se o pai gosta mesmo dela como voc disse. Temos lido muito sobre voc, Sharon Wykeham; sobre seus casos, sobre
seu dinheiro. Soubemos que vinha para a Itlia e fizemos nossos planos com muito cuidado. Nico nos garantiu que no seria difcil para ele conseguir a sua confiana:
parece que voc tem um fraco por bonites.
         - Pare com essa conversa mole, Olvia - ordenou Nico. - Leve-a para a fazenda. Tenho que entregar o Mercedes e avisar o pai dela. Vamos saber os resultados
muito em breve. Agora, lembrem-se: quando chegarem  fazenda, tudo deve parecer muito normal. Sem nenhuma dvida, os vizinhos vo reparar que tem gente l e  provvel
que a polcia aparea.
         - Quando voc vai voltar?
         Sharon teve a impresso de que Nico estava se irritando com a atitude dominadora de Olvia.
         - No sei. Depende.
         - E ela? - perguntou, apontando com a arma para Sharon.
         - Continue com o plano. Siga estritamente o plano. E nada de brutalidades. No h necessidade de...
         - Por que voc no quer que a pele macia dela se estrague?
         Subitamente, Sharon percebeu que Olvia estava com cime. O que existia entre a moa e Nico? Seriam amantes? Ficou surpresa quando percebeu que essa hiptese
a fazia sofrer. No entendia como a traio dele no havia matado a atrao que sentia.
         - A pele dela no me interessa, a no ser por causa do preo que poderemos conseguir - respondeu Nico, impassvel. - Devia saber disso. E devia saber tambm
que teremos que apresentar ao pai algo que prove que ela est viva e bem. Por isso, no quero que encostem o dedo num fio de cabelo dela; pelo menos, por enquanto.
Vou tirar as fotos quando voltar.
         Olhou as horas no caro relgio de ouro que usava e Sharon sentiu-se enojada ao perceber de onde vinha o dinheiro para todos aqueles luxos. Ela j no existia
para ele como uma pessoa; na verdade, nunca tinha existido. Todo o tempo, no passava de uma mercadoria que ele podia trocar por dinheiro.
         Antes de se afastar, Nico ainda recomendou a Sharon:
         - No fique tentada a fazer nenhuma tolice. Olvia tem ordem para atirar, se voc tentar fugir.
         - E no para matar - acrescentou a moa, rindo com maldade. - Voc vai ficar bem menos atraente aleijada...
         Sharon no conseguiu esconder o terror, e a outra deu uma gargalhada. Mas o riso foi abafado pelo rudo do motor do Mercedes, que logo desapareceu numa
curva da estrada, seguindo o mesmo caminho que tinha feito pouco tempo atrs.
         Era a realizao de seus piores pesadelos! Uma descida ao inferno, com cada nervo do corpo em quase insuportvel tenso. Tinha vontade de sair correndo,
mas sabia que seria s um convite para Olvia, alegremente atirar em suas pernas.
         Parada sob o sol forte, Sharon aos poucos se convencia da terrvel realidade. O amor que comeava a desabrochar, trazendo o desejo, tinha sido esmagado
pela desiluso, e nascia em seu corao um feroz sentimento de vingana. No tanto por ter sido seqestrada, mas pela maneira como acontecera: a facilidade com que
Nico se intrometera em sua vida, sua vulnerabilidade diante dele, o modo frio e calculado como a usara. Ela o faria pagar, nem que para isso tivesse que pagar com
o prprio sangue! Sentia a chama da vingana queimando o corao, afastando o medo e tornando-a forte bastante para enfrentar aqueles trs que apontavam as armas
em sua direo.
         O dio e o orgulho fizeram com que enfrentasse a situao com altivez. Passado o choque, j conseguia pensar com mais clareza. Seu pai era um milionrio,
todo mundo sabia, por isso havia sido escolhida, mas a maior parte de sua fortuna estava investida em seus negcios. Embora tivesse condies de levantar uma enorme
soma em dinheiro, Sharon duvidava de que a libertassem, J tinha lido seu destino no olhar duro dos seqestradores. Quantas outras vtimas haviam sido libertadas?
Lembrou-se do grande amigo do pai, seqestrado e depois assassinado.
         Tinha duas escolha diante de si: ou se deixar dominar pelo pnico e se tornar desprezvel, implorando pela prpria vida; ou, ento, reservar toda a energia,
toda a sua fora fsica e mental para tentar ser mais esperta do que seus captores. O mesmo instinto que levara seu pai de uma obscura posio social  posio que
ocupava no momento fez com que Sharon reagisse. O instinto de sobrevivncia tambm a ajudou a ter foras para fazer sua opo. Seguindo as ordens de Olvia, ela
se lembrava de uma frase que algum um dia lhe ensinara: "Viver bem  a maior vingana".
         Nesse caso, sobreviver seria a sua vingana, e ela se agarraria a isso com todas as foras. No sabia ainda o que fazer, mas sabia que queria viver para
levar aqueles trs aos tribunais. E Nico... A vingana teria um gosto doce, e queria sentir esse gosto. Era um sentimento to forte que dominou todos os outros;
at o medo. Sua mente trabalhava febrilmente, procurando uma maneira de escapar. Chegou mesmo a se esquecer do silncio ameaador dos trs bandidos e das armas que
apontavam para suas costas, enquanto caminhava em direo ao Land Rover.


         CAPTULO III

         - Para dentro! - ordenou Olvia, com o cano da arma tocando o corpo de Sharon.
         O mais alto dos homens a olhava, impassvel, mas o outro, mais baixo e mais moreno, fez Sharon estremecer, quando olhou seu corpo com um ar de inequvoco
desejo.
         - Lembrem do que Nico disse - recomendou Olvia, entrando tambm no Land Rover. - Quando chegarmos na fazenda, temos que agir corno se levssemos uma vida
normal l.
         - Nico! - protestou o mais, moro, cuspindo de lado. - Dio, quem  Nico para nos dar ordens? Ns sempre trabalhamos sozinhos!
         Sharon teve a impresso de que no era a primeira vez que ele se queixava, porque Olvia respondeu, friamente:
         - Isso foi antes. Agora, recebemos ordens diretamente de Roma e Nico  o chefe. No foi ele quem fez todos os planos do seqestro? E vai nos dar muito mais
dinheiro do que...
         - Dinheiro! Estamos sempre precisando de dinheiro! - disse o mais alto. - Nossa causa no tem colaboradores com muito dinheiro...
         Todos riram, mas logo Sharon deu um gemido de dor, quando Olvia torceu seu pulso.
         - Piero, voc dirige - ordenou a mulher. - Guido, me ajude a pr as algemas nela.
         Guido era o mais baixo, o do olhar assustador. Sharon recuou quando ele chegou mais perto dela. Era um homem forte, e foi com facilidade que agarrou seus
pulsos, algemou e prendeu no banco do Land Rover.
         - Isso  para evitar que voc pense em alguma bobagem e tente se jogar do carro - disse Olvia. - No que eu ache que v fazer isso. No tem cara de querer
bancar a mrtir. Ser que nunca pensou que, enquanto vive tomando champanhe e comendo caviar, vestindo sedas e cetins, existe gente passando fome, sustentando com
sua misria o luxo dos opressores? Mas isso vai terminar logo!
         Aquele fanatismo assustou Sharon. No entendia bem o que a outra falava, mas fingiu estar muito interessada: pensou que, se compreendesse melhor seus captores,
talvez pudesse descobrir algum modo de escapar.
         -  nisso que vocs acreditam?
         - Claro! - respondeu Olvia, os olhos escuros brilhando. - Cada homem e cada mulher tem o direito de ser igual ao outro, mas esse direito  negado a eles.
A riqueza, que devia ser dividida por todos, fica na mo de uns poucos. Mas isso vai acabar! Nem que tenha que haver um banho de sangue!
         Sharon no conseguia acreditar no que ouvia!
         - Mas a Itlia  um pas catlico! O povo nunca aceitaria uma violncia dessas!
         - No final, todos vo reconhecer a justia do que estamos fazendo - interrompeu Guido. - At a Igreja se esqueceu dos pobres. Vamos tirar as riquezas das
minorias e distribuir para o povo.
         Sharon estremeceu. Ser que Nico compartilhava do fanatismo daqueles trs?
         - A organizao tem aliados muito fortes - contou Olvia. Nossos jovens j viram como a religio  hipcrita. "Benditos so os mansos"...  o que eles dizem,
mas dizer e fazer so coisas diferentes. E, nesse. mundo, os mansos so pisoteados!
         - E pretende mudar isso
         -  o que muita gente pensa que vamos fazer - foi a vez de Piero responder, - mas sempre haver aqueles que mantm o poder e os que se curvam diante dele.
Antes de construirmos, temos que destruir a velha ordem.  para isso que precisamos do dinheiro. Dinheiro de resgates como o seu.
         - Entre todas as organizaes terroristas do mundo - disse Olvia , a nossa  a mais temida. Mais do que a OLP ou as Brigadas Vermelhas. Somos responsveis
pela morte de mais de mil pessoas.
         - Mas esto matando gente inocente! - protestou Sharon. Vocs conseguiriam muito mais aliados se dialogassem, em vez desse terrorismo cego.
         - Como fazem os ditadores? - caoou Piero. - Descobrimos que uma metralhadora  mais ouvida do que um milho de pessoas, embora, algum dia, nossa voz v
ser ouvida em todo o mundo. E isso vai acontecer, nem que seja preciso destruir todos os que tentarem nos impedir!
         O veneno daquelas palavras aterrorizou Sharon. No tinha mais nenhuma dvida de que a matariam.
         - Fora!
         Estava to imersa em seus pensamentos e seu terror que nem havia reparado que o Land Rover tinha parado.
         - Depressa! - ordenou Olvia, depois de abrir as algemas, empurrando-a com brutalidade para fora do carro. - No faa Guido esperar. Quando ele fica impaciente...
- No terminou a frase ameaadora, nem precisava. Sharon olhou para o riso sinistro do homem que a esperava ao lado do jipe e sentiu um arrepio.
         - Por que no damos a ela uma amostra do que a espera? - sugeriu ele, chegando mais perto e agarrando a blusa de Sharon.
         Mas Olvia o impediu.
         - Nico disse para no encostar a mo nela.
         - Por que ele a quer primeiro? - perguntou Guido, irritado. - E, tambm, como ele saberia? No  o primeiro homem da vida dela.
         - Nico no quer essa idiota mimada! - gritou Olvia, subitamente transtornada de raiva, os olhos examinando o corpo frgil e esguio de Sharon, - Ele despreza
tudo que ela representa. Agora saia!
         Sharon obedeceu, trmula. Graas a Deus eles no sabiam a verdade, pensou agoniada, e quase histrica. Se soubessem... Tinha certeza de que Guido adoraria
a idia de estuprar uma virgem.
         A casa ficava no meio de vrios acres de uma terra pobre, onde havia oliveiras raquticas e parreiras decadentes. Num curral prximo, viu algumas vacas
muito magras.
         - Foi idia de Nico - explicou Olivia. - Se algum aparecer por aqui, ns somos apenas uma pobre famlia tentando ganhar a vida, cuidando das terras. Guido
e Piero so meus irmos.
         - E Nico? - perguntou Sharon, percebendo muito tarde que era exatamente isso o que a outra estava esperando.
         - Ora, Nico faz o mesmo papel que faz na vida real - disse ela, com os olhinhos escuros brilhando. - Ele  o meu homem, meu amante. - Riu de um jeito desagradvel
e continuou: - Sua gr-fina estpida! Ento pensou que um homem como Nico ia mesmo querer uma mulher como voc? Uma mulher que no se interessa por mais nada, alm
de jias e vestidos caros?
         - Pelo menos,  melhor do que suas idias alucinadas e essa sua causa - respondeu Sharon, sem conseguir se controlar.
         A outra revelou toda a sua covardia e violncia, pegando-a pelos cabelos e puxando at Sharon gemer de dor. Depois, esbofeteou-a.
         Sharon sentiu vontade de vomitar. No, de medo, mas de nojo. Ento, era aquela mulher que Nico preferia a ela? Ser que tinham caoado muito dela, enquanto
planejavam o seqestro? Ser que Nico tinha comentado os beijos e os carinhos com que pretendia conquist-la?
         - Era o dever dele - disse Olvia, como se lesse seus pensamentos. - No pense que em algum instante Nico desejou voc. Ele a odeia. E a todos como voc.
Se no fosse pelo dinheiro que seu pai vai dar para ter voc de volta, ele a mataria sem o menor remorso. Como se matasse uma cobra!
         Sharon comeava agora a entender que estava nas mos de fanticos que no tinham o mnimo respeito pela vida humana. E que Nico fazia parte do bando. Seu
sofrimento era to grande que por pouco no se humilhou a ponto de perder o controle, mas, com um supremo esforo, manteve-se calada. Tinha que pensar com calma
em alguma maneira de fugir, para poder se vingar.
         Entraram rapidamente na casa. No trreo, havia apenas uma sala grande e rstica, com cho de terra batida, um enorme fogo de lenha com alguns utenslios,
encardidos e velhos, e uma torneira numa pia de pedra. O banheiro era numa construo precria do lado de fora, e Sharon estremeceu ao pensar na falta de conforto
que teria que enfrentar. Como  que Nico podia estar do lado daquela gente?
         Nico! Por que sentia essa dor to intensa quando pensava nele? O homem por quem ela se interessara simplesmente no existia. Era uma iluso, uma fico.
         - Venha!
         A ordem seca e o empurro grosseiro fizeram com que Sharon voltasse  realidade. Olvia indicou que ela devia subir uma escada de madeira, que levava ao
andar superior. L em cima, havia um pequeno hall com quatro portas. Em uma delas, havia um cadeado novo. Olivia abriu essa porta e fez com que Sharon entrasse no
quarto empoeirado. O cmodo era pequeno e tinha uma janelinha para deixar entrar um pouco de ar e luz. Num canto, uma cama de armar e, sobre ela, um saco-de-dormir.
         - Seu quarto. Espero que a signorina encontre tudo a seu gosto.
         A porta j estava fechada e trancada por fora, antes que Sharon tivesse tempo de comentar alguma coisa.
         Sozinha, correu para a janelinha, mas no podia ver nada alm dos campos abandonados e um pequeno rio. Eles eram profissionais, pensou, enquanto avaliava
sua situao. Quando o pai descobrisse seu desaparecimento, seria tarde demais. Tinha lido alguma coisa sobre essas organizaes terroristas: fanticos sem piedade,
cuja crueldade para com as vtimas ultrapassava qualquer sentimento de decncia e humanidade. Aos poucos, lembrou-se de vrios casos: o do herdeiro de Getty, que
tinha perdido uma orelha; Patty Hearst, forada a se unir  gang que a seqestrara, e mais uma meia dzia de outros. De repente, perdeu o controle e comeou a tremer
violentamente. Teve que fazer um grande esforo para no gritar at ficar rouca. Atirando-se na cama, chorou desesperadamente.
         Para aumentar sua aflio, sentia fome. Ser que eles planejavam deixar que morresse  mngua? Parou de chorar e ficou atenta. Ouviu ento passos na escada.
Limpou o rosto e esperou que a luz do quarto no revelasse que tinha chorado. Muito tensa, ficou olhando para a porta.
         - Guido! Volte aqui! - ouviu Olvia gritar. - Nico est chegando.
         Com um suspiro de alvio, Sharon escutou os passos se afastarem. Algo nos olhinhos de rato de Guido a deixava toda arrepiada. Se conseguisse escapar, ela
os faria pagar! Todos eles! E, mais do que todos, Nico. Nico que a enganara fingindo se importar com ela, quando na verdade s se interessava por seu dinheiro...

         - Ento, est compreendendo?
         Estavam todos na sala embaixo, Nico e Olvia sentados de um lado da mesa rstica, e Sharon do outro, enquanto Guido e Piero montavam guarda...
         Amanhecia, e Sharon nunca vira com tanto alvio o fim de uma noite. No tinha conseguido dormir, e agora ouvia pela milsima vez o que lhe aconteceria,
se tentasse fugir.
         - Por que simplesmente no me deixam trancada l em cima? - perguntou, ignorando o sbito brilho de aviso nos olhos de Nico.
         Como ele mudara! Como podia ter achado que era um homem bom?
         Era a pessoa mais insensvel que conhecia.
         - No somos assim to tolos - disse ele, com frieza. - Esse lugar pode ser revistado. Se eu fosse voc, me comportaria exatamente como mandamos. Voc 
prima de Olvia, um pouco fraca de cabea, mas que ajuda na casa. Acabamos de comprar a fazenda e estamos trabalhando duro para que volte a dar lucro. E vamos trabalhar
mesmo - acrescentou, virando-se para os outros. - Ser um treino excelente para o futuro quando todos seremos iguais.
         Se no soubesse que falava srio, Sharon diria que havia uma leve ironia nas palavras de Nico. Mas Olvia no percebeu e respondeu, muito sria:
         - Nunca trabalharemos a terra como camponeses, Nico. Isso no ser para...
         - Sempre pensei que o item mais importante da sua causa fosse a igualdade. Que no haver elite - interrompeu Sharon.
         - Sempre ter que haver os que comandam. Nossa organizao j est preparando homens e mulheres para essas posies, mas eles no sero motivados pela ambio
ou pelo prazer do poder, como os governos de agora. Ns seremos os guias do povo para a implantao da nova ordem e para o prprio benefcio do povo...
         - As mesmas palavras dos ditadores - comentou Sharon.
         - Chega! - gritou Nico. - Como acabei de dizer, se a polcia aparecer, um movimento em falso, e voc ser morta. E eles tambm...
         - Tanto derramamento de sangue! Ser que compensa? - perguntou ela, amargurada.
         - Pergunte ao seu governo - respondeu Olvia. - Eles se tornaram gordos e preguiosos s custas da morte dos outros. Pergunte a eles se vale a pena.
         - Vai ser uma tarefa ingrata tentar convert-la, Olvia - interrompeu Nico. - Esqueceu que o pai dela  um desses gordos preguiosos?
         Sharon poderia ter dito a eles que o pai comeara muito humilde mente e que tinha construdo seu imprio com o prprio esforo, mas preferiu ficar calada.
Ser que ousaria denunciar o grupo, se a polcia aparecesse? Com relutncia, concluiu que no. No, porque estaria arriscando a vida, mas porque estaria arriscando
a de outros.
         Os olhos cinzentos de Nico no escondiam o dio que sentia.
         - E no se esquea de que tanto Guido quanto Piero no hesitaro em cumprir minhas ordens. Mais uma coisa: Olvia me disse que voc tentou conquistar Guido!
Para seu prprio bem, eu a aconselho a desistir. Guido  completamente leal  nossa causa, e, embora tenha um fraco por mulheres, voc no conseguiria convenc-lo
a deix-la escapar. Ele seria perfeitamente capaz de fazer amor com voc e logo depois, mat-la sem a menor remorso ou indeciso... No passa de um carpa para ele,
Sharon; no uma pessoa.
         - Como vou me esquecer disso?  algo que voc e ele tm em comum. Uma das caractersticas da sua organizao, com certeza.
         Sharon sentiu uma pobre alegria ao perceber que ele empalidecia. Ento, era um pouco vulnervel ao que ela dizia? No tinha gostado de ser posto no mesmo
nvel de Guido. Que tipo de igualdade era essa de que tanta falavam, afinal? .
         O que ela faria se a polcia aparecesse? Ser que conseguiria chamar a ateno? Ou ser que a reconheceriam? Uma luz de esperana iluminou seu corao.
Mas, como se lesse seus pensamentos, Nico falou:
         - Temos que fazer alguma coisa para mudar sua aparncia. - Olhou para Olvia. - Logo depois de tirarmos as fotos para mandar ao velho, vamos cortar os cabelos
dela.
         Seus cabelos! Imediatamente suas mos se ergueram, como se tentassem proteg-los. Sempre usara os cabelos compridos. Todos lhe diziam que pareciam pura
seda. Viu que os olhos de Olvia brilhavam de prazer.
         O almoa foi apenas po preto e queijo de cabra, acompanhados de uma caneca de caf. Sharon esforou-se para engolir tudo, dizendo a si mesma que no podia
ficar fraca.
         Quando terminou, Nico resolveu tirar as fotos. Mandou que Olvia algemasse suas mos nas costas, o que a outra fez com tanta grosseria que Sharon no conseguiu
impedir um gemido de dar.
         - Cuidada, Olvia. No vamos querer que papai entre em pnico, ao ver sua queridinha chorando.
         - Por que no? S vai fazer com que ele pague mais depressa o resgate.
         - Mas tambm pode ficar apavorado a ponto de fazer alguma bobagem... - disse ele, comeando a perder a pacincia. - Lembre-se da que, aconteceu com John
Hunter.
         - Voc... voc  sdico! Imagino que sua mente doente est orgulhosa da facilidade com que me enganou. Sim, fui enganada. Pode continuar, conte a eles.
Garanto que vo se divertir. Vocs no merecem fazer parte da raa humana!
         - Tenha cuidado - preveniu Nico, muito tenso, - ou vou ser obrigado a mostrar como posso ser anti-social de verdade. - Seus olhos pousaram significativamente
nos belos seios de Sharon, que, para seu desespero, sentiu que corava. Era o que ele queria.
         Os flashes explodiram antes que ela desviasse o olhar. Foi forada a reconhecer que ele a havia enganado mais uma vez.
         - E agora o tape - ouviu-o dizer, com um tom muito comercial. - Vamos dizer umas palavrinhas para o adorado papaizinho, contando como est se divertindo.
         - V para o inferno! - gritou Sharon, quando ele apareceu com um mini-gravador. - No vou dizer uma palavra!
         A maneira como Nico se aproximou, com o andar perigoso de um tigre, foi assustadora.
         - Pois eu acho que vai. - Aquelas palavras frias e decididas comearam a minar completamente sua fora de vontade. - Podemos conseguir isso de duas maneiras:
tranqilamente, sem intimidaes ou violncias, ou... - Calou-se e esperou.
         Sharon sabia que ele cumpriria a ameaa. Por um momento, teve mpetos de resistir, mas prevaleceu o bom-senso.
         - O que devo dizer? - perguntou, tentando engolir o amor-prprio ferido.
         Felizmente, a gravao foi curta: meia dzia de frases dizendo ao pai que estava correndo srio perigo, que ele no devia chamar a polcia, e, sim, fazer
tudo que os seqestradores mandassem.
         - Excelente! - exclamou Nico, quando ela terminou. - Viu como a vida fica mais fcil quando voc coopera?
         Dessa vez, ela no conseguiu mais manter o controle.
         - Meu Deus, como eu o detesto!
         Ele apenas a olhou com frieza e depois guardou a fita em uma caixa.
         - Muito bem. Agora todos voltem a seus postos. Sharon vai ajudar Olvia a fazer o jantar. O qu? - murmurou, com uma voz falsamente calma, quando ela comeou
a protestar que podiam t-la seqestrado, mas que no podiam faz-la de criada. - Acha que o servio domstico  indigno? Talvez prefira trabalhar nas vinhas, com
Guido.
         Deus, como ela o odiava! Tinha adivinhado seu ponto fraco com diablica facilidade. Sabia como Guido a enojava, como sua pele se arrepiava s em olhar para
ele.
         Entorpecida pelo pavor, resolveu seguir Olvia, enquanto a risada de Nico ecoava em seus ouvidos.
         Obviamente, a outra no era do tipo domstico. Com uma careta, empurrou a bacia com as verduras para Sharon.
         - Voc trata disso - ordenou, e comeou um montono discurso sobre como sua organizao via o futuro papel da mulher e que, pelo que Sharon percebia, no
inclua lavar e cozinhar.
         E ela que sempre pensara que sua educao na escola de etiqueta e economia domstica a havia preparado mal para a vida! Comparada a Olvia, percebia que
sua experincia era bem mais completa. Quem Olvia e suas companheiras pensavam que trataria de coisas bsicas como alimentao, roupas e os pequenos confortos no
mundo novo que planejavam criar?
         Enquanto raspava as cenouras, Sharon observou a faca que usava. Pequena e afiada... Ser que teria coragem de escond-la?
         Olhou por cima do ombro. Guido estava de p, na porta, limpando o revlver. Piero tinha sado um pouco e Olvia conversava em voz baixa com Nico. Com o
corao aos pulos, ela apertou a faca.
         - Acabou?
         Olvia pegou a bacia e Sharon guardou depressa a faca no bolso da cala. Respirando com dificuldade, esperou que algum a mandasse entregar a faca, mas,
inacreditavelmente, nenhum deles falou.
         - Quando vou cortar o cabelo dela? - perguntou Olvia. - No podemos correr o risco de deix-la assim.
         Nico olhou fixamente para Sharon. Ser que ele tinha percebido alguma coisa? Havia uma curiosa expresso em seus olhos. Teve a impresso de que estava com
pena dela, mas a resposta foi rspida:
         - No... no podemos.  melhor lev-la para cima.
         Guido, estava agora perto da escada, e, para subir, Sharon tinha que passar por ele. O homem riu, com ar guloso, enquanto. Seu olhar pausava nos seios que
a camiseta fina no disfarava.
         - Olhem s para ela, - caoou Olvia. - A pura virgem de sociedade. Por que tanta pose? Guido no  diferente dos homens com quem foi para a cama. E ele
teve muitas amantes ricas. Mulheres gr-finas gostam de machos que as tratam com um pouco de brutalidade, no  mesma, caro? Ou voc est fingindo par causa de Nico?
- Olhou para ele, desconfiada. - Tenha cuidado, amico, ela vai tentar conquistar voc. Conhea o tipo.
         L em cima, em uma priso estreita, Olvia obrigou-a a sentar-se na nica cadeira. Apesar de mais baixa do que Sharon, a italiana era forte. Sharon tentou
no demonstrar dor, quando a, outra puxou uma mecha de seus cabelos e comeou a cortar com uma tesoura de cozinha. Logo, o cho ficou coberto dos fios castanho-avermelhados.
         Ela no ia chorar, no ia! Mas no podia deixar de se sentir angustiada.
         - Meu corte no ficou bem no seu estilo - caoou Olvia, ao terminar. - Li que a Irlanda do Norte eles costumam passar piche e depois grudar penas na cabea
das mulheres traidoras. Pelo que sei, para tirar o piche, s mesmo raspando a cabea delas, no ?
         - Por que pergunta? - Sharon se orgulhou por conseguir manter a voz firme. - Por acaso est pensando que sua organizao poderia fazer a mesmo com suas
traidoras?
         - O que estou pensando  que seu pai pagaria o resgate mais depressa se as fotografias mostrassem voc pichada e com penas coladas da mesma maneira. Vou
conversar com Nico.
         Era demais para Sharon. Sem saber como, estava empunhando a faca e avanando para a outra. Escutou a moa gritar, chamando Nico, ouviu quando ele ordenou
a Guido que ficasse de guarda e subiu depressa a escada aparecendo na porta.
         - Me d essa faca, Sharon!
         Agarrou-a por trs, torcendo seu brao com firmeza, mas, para surpresa dela, sem brutalidade. A faca acabou caindo no cho. Xingando sem parar, Olvia esbofeteou-a
com fora.
         - Pare com isso, Olvia! - ordenou Nico.
         - Olhe o que ela fez comigo! - Mostrou um arranho no brao. - Vai me pagar por isso! - E pegou a tesoura.
         Com a mesma firmeza com que desarmara Sharon, Nico agora desarmava Olvia.
         - Voc a revistou? -perguntou, com calma.
         - Ela no vai mais encostar a mo em mim! - gritou Sharon, antes de pensar no que aquilo significava, mas era tarde demais.
         - Pois bem, ento, eu vou - disse Nico.
         - No!
         Seu protesto fez com que Olvia desse uma gargalhada.
         - Deixe essa tesoura comigo e v l embaixo - ordenou Nico. - E ajude Guido a montar guarda.
         Sharon percebeu que a moa estava relutante em deix-los sozinhos, mas tambm era evidente que no ousava desobedecer.
         Por alguns instantes depois que Olvia desceu, ele continuou imvel, olhando para Sharon. Depois falou, friamente:
         - Agora, venha c. Vamos acabar com isso.
         - Voc no vai encostar a mo em mim!
         Sua voz no tinha a mesma convico de antes, e ela comeou a recuar para o fundo do quarto. Ele se moveu to depressa que, quando Sharon percebeu, estava
presa em seus braos.
         - No!


         CAPTULO IV

         - S quero revistar voc, no violentar - disse Nico, com incrvel frieza.
         - Por que no junta o til ao agradvel? - perguntou ela, amargurada. - No  assim que homens como voc costumam se excitar?
         - Homens como eu? - Falou to suavemente que Sharon poderia at acreditar que tinha imaginado a revolta dele, se no fosse por um msculo que se contraa
em seu maxilar. - Tem certeza de que no  voc que est procurando emoes? Mocinhas ricas e mimadas tm fama de... Oh, no, no vai fazer nada disso! - Agarrou
a mo dela, impedindo a bofetada, e puxou-a para si.
         A explorao total do corpo dela foi a experincia mais humilhante pela qual Sharon j passara.
         - Est vendo? -- Nico provocou. - Ningum pode dizer que perco o controle com facilidade, no acha?
         - Voc ... ... nojento! Odeio voc! Odeio!
         Ela estava  beira das lgrimas e virou o rosto para que ele no percebesse.
         - Sharon?
         Seria imaginao, ou a voz de Nico estava mais doce?
         - Estou bem... Prefiro que v agora - comeou a dizer, mas o corpo todo tremia de excitao. Imediatamente, sentiu o rosto em fogo. - Saia daqui! E no
toque em mim! No suporto que toque em mim!
         Era a coisa mais errada que podia ter dito. Ele a olhou com sarcasmo.
         - No, mesmo? - Seu olhar estava fixo nos seios de Sharon. - Pois ento, acho que alguma coisa no funciona muito bem com voc e o que realmente quer 
que... eu toque em voc, e muito.
         - No!
         - No? Vamos fazer um teste?
         Antes que Sharon pudesse se defender, j estava entre os braos dele e sendo beijada. Tentou manter a boca fechada e fazer de conta que era Guido que a
beijava. Esforou-se para sentir nojo, e no prazer, quando as mos de Nico lentamente subiram por seu corpo, pressionando os seios palpitantes. Deu um gemido abafado,
quando ele soltou o suti, conseguindo finalmente sentir o calor dos seios. Agora, os lbios de Nico se apoderaram dos dela, fazendo com que experimentasse uma volpia
desconhecida.
         As carcias eram enlouquecedoras, mas no bastavam. Sharon no tinha mais foras para resistir  louca atrao e ansiava agora por sentir a pele nua contra
a dele. Afastou-se um pouco, olhando-o nos olhos, suplicante.
         - Nico? - Olvia chamou l embaixo.
         Ele sorriu contrafeito e imediatamente foi para a porta, deixando Sharon atormentada e arrependida. O que tinha acontecido com ela? Como podia ter correspondido?
Odiava aquele homem! Apesar de tudo, seu corpo inegavelmente respondia ao contato dele. Por qu?
         S quando ficou sozinha, Sharon deixou que as lgrimas corressem livres, o corpo tremendo incontrolavelmente.  sua volta estavam seus cabelos cortados,
mas no era por eles, que chorava; era por algo mais profundo, que no sabia explicar; Quando Nico a abraou, nasceu dentro dela um sentimento profundo, e estava
certa de que ele tinha percebido. Houve um instante fugidio, quando a olhou, sabendo que seu corpo ansiava pelo dele, por mais absurdo e cruel que isso pudesse ser.
         Pegou um1eno de papel na bolsa. Se ao menos tivesse posto uma blusa  a mais. Sentia-se suja e suada, e no quarto no havia gua para se lavar. E, a no
ser Nico, os outros no pareciam muito preocupados com a limpeza pessoal. Nem mesmo Olvia. Mas para Sharon era terrivelmente incmodo no poder tomar banho e escovar
os dentes.
         Havia um rio no vale, que ela via pela janelinha. S a viso da gua correndo placidamente aumentava seu calor. Ser que arranjaria coragem para pedir uma
bacia? Olvia provavelmente adoraria negar, e no queria pedir aos homens.

         Com o passar do dia, uma espcie de torpor comeou a domin-la.
         No tinha nada para fazer, a no ser pensar na gravidade de sua situao, e sentia-se cada vez mais miservel, consciente de que sua vida poderia terminar
a qualquer momento, ali naquela casa de fazenda suja e isolada...
         Escutou alguns rudos  tarde, mas ningum subiu. Podia ver Guido trabalhando entre as vinhas e rezava para que a polcia chegasse, como Nico havia prevenido.
         Se eles aparecessem, nada a impediria de tentar avisar quem era; mesmo se fosse baleada, ao menos teria feito alguma coisa. Mas poderia arriscar a vida
dos policiais? Sharon sabia que no.
         Tinha visto Nico sair de carro um pouco depois de deix-la e s voltar ao cair da noite. Devia ter ido mandar as fotos e a fita gravada a seu pai. Sharon
imaginava quanto tempo levaria para receberem alguma resposta.
         Meia hora depois da volta de Nico, Olvia apareceu.
         Um cheiro gostoso de comida chegava at em cima, e a italiana levou-a para a sala. Sharon ento percebeu que estava faminta.
         - Nico comprou umas massas e molhos - explicou Olvia, quando Piero comentou o cheiro.
         Nem Guido nem Piero se incomodaram em lavar as mos antes de se sentarem  mesa, mas Nico tinha trocado a roupa e usava agora uma camisa branca e jeans
desbotados. E, apesar de no ter trabalhado l fora, preocupou-se em lavar as mos.
         Sem pedir permisso a ningum, Sharon tambm se lavou. Era uma delcia sentir a gua gelada escorrendo por entre os dedos.
         - Mas que preocupao de impressionar Nico - caoou Olvia. - Acha mesmo que ele liga para seus modos de menina rica?
         - Algumas pessoas preferem se sentir limpas - respondeu Sharon, ofendida pelo ar de escrnio da outra.
         - O que est querendo insinuar? - Olvia perguntou, claramente irritada. - Nico, no vou permitir que ela me insulte. Ou voc diz para essa cadela tomar
cuidado com o que fala, ou eu vou tomar minhas prprias providncias.
         Sharon percebeu que Olvia tinha armado uma cilada para ela, mas por qu? Para poder submet-la a mais castigos corporais? Nenhum deles tinha coragem de
discutir as ordens de Nico, mas, ao mesmo tempo, sentia que ele parecia um pouco afastado dos trs; at mesmo de Olvia, que presumivelmente era sua amante.
         - Vamos parar com isso e comer! - Nico ordenou, pondo fim  discusso.
         A comida estava deliciosa, e Sharon se surpreendeu com a rapidez com que esvaziou o prato. Podia estar desesperada, mas seu corpo precisava ser alimentado
e fortalecido.
         Foi Nico quem a levou de volta ao quarto mais tarde. Ela esperou que fechasse a porta, mas, para sua surpresa, ele no o fez.
         - Se quiser, eu posso mandar Olvia levar voc at o rio - sugeriu. Mas o olhar dele transmitia uma certa piedade, e isso irritou Sharon, que reagiu com
amargura.
         - O que  que h? Estou ofendendo sua sensibilidade com minhas roupas sujas? Meu corpo suado? Azar seu! Vai ter que agentar.
         Nem bem acabara de falar, j estava arrependida, mas era tarde demais para voltar atrs, pois Nico tinha dado meia-volta e saa do quarto.
         - Faa como quiser, Sharon. S pensei que gostaria de tomar um banho. De amanh em diante, todas as noites, um de ns vai andar um pouco com voc. Precisa
fazer exerccio, e, se disser que no vai, ser forada.
         - Mas que preocupao com o meu bem-estar! Por qu? Acha que no sei a pouca chance que tenho de sair viva daqui?
         Inconscientemente, sua voz revelava sua imensa angstia. Teve a impresso fugidia de que ele sentia vontade de abra-la e confort-la, mas s podia ser
uma iluso, porque, quando olhou melhor, s viu frieza naqueles olhos de ao. A pergunta que ele lhe fez em seguida, com voz enganadoramente suave, teve a crueldade
de uma bofetada:
         - E, se for assim, o que mais sentiria perder? O amor nos braos do ltimo amante? A sensao agradvel das sedas no corpo? O brilho de suas jias?
         - Nenhuma dessas coisas. O que mais sentiria perder era respirar o ar puro e fresco, no contaminado por animais como voc. Animais? - Deu uma risadinha
histrica. - No! Animais no fazem isso uns aos outros. No destroem s para conseguirem ganhos materiais, sem se importarem com o sofrimento que causam. Quanto
pediu ao meu pai?
         - Um milho de libras - respondeu Nico, imperturbvel. - Um bom dinheiro, no acha?
         - Voc planejou isso desde o comeo. No baile, em Roma, no  foi?
         - Foi. - No demonstrava nenhum arrependimento.
         - E mesmo sabendo o que ia acontecer, mesmo assim, ainda foi capaz de... de...
         - Flertar com voc? perguntou, com cinismo. - Era necessrio e no foi difcil. - Ela viu um msculo tremer quase imperceptivelmente no maxilar forte e
ligeiramente sombreado pela barba. - Voc  uma mulher especialmente atraente, como tenho certeza de que sabe, e o clima estava ideal. Que macho italiano teria agido
diferente?
         "Que boba, que boba que eu fui", pensou, pensado que aquilo significava alguma coisa. Estava desconsolado. Tinha se comportara como uma adolescente ingnua!
         - Voc  uma mquina, no um homem!
         Teve medo de que ele a esbofeteasse, mas, em vez disso, Nico olhou-a com compreenso, os olhos cinzentos quase negros.
         - Voc se revolta porque reagiu comigo como mulher. - Suas palavras trouxeram um pouco de cor ao rosto plido de Sharon. Mas no devia.  uma reao perfeitamente
normal, nas circunstncias. Uma mulher com sua experincia inevitavelmente reage a um homem, ainda mais quando ele...
         - ...tenta seduzi-la?
         Ele encolheu os ombros.
         - Voc fala como se fosse uma virgem, o que ns dois sabemos que no . As coisas seriam bem mais fceis, se no tentasse lutar contra elas. No tenho nenhuma
vontade de ferir ou humilhar voc...
         Ela deu uma risada amarga.
         - Olhe aqui... - ameaou Nico, avanando para ela, que recuou, assustada.
         - O que est tentando fazer? Provocar o cime de Olvia? Por que no chama sua queridinha aqui em cima para ver...
         - Est mesmo disposta a me aborrecer, no est?
         Com a elasticidade de uma pantera, ele a segurou e puxou contra o corpo msculo, enquanto as mos acariciavam os ombros delicados, desciam pelas costas,
subiam at a nuca.
         - No! - gemeu, protestando, mas foi s quando a boca de Nico esmagou a dela que Sharon percebeu o quanto o tinha irritado.
         "Obviamente, ele no est acostumado a ser criticado por uma mulher". pensou, tentando lutar contra o calor que invadia seu corpo. Nico conseguiu provocar
nela uma resposta imediata, e agora o sangue fervia nas veias.
         Os lbios dele pressionavam com tal violncia que Sharon comeou a sentir na boca o gosto salgado do sangue. Ele tambm sentiu, pois imediatamente diminuiu
a presso e passou a lngua suavemente nos lbios entumescidos. Aquilo provocou nela uma onda to intensa de prazer que a deixou fraca e zonza, sem conseguir compreender
o que lhe acontecia. Ela o odiava! Ela o desprezava!
         - O que est tentando fazer? - Sharon perguntou, quando Nico a soltou.
         - Eu podia fazer a mesma pergunta - foi a resposta seca.
         Sharon afastou-se at a janela, as pernas mal a agentando. Por que sentia esse magnetismo sexual to violento, sempre que Nico chegava perto? Desprezava
o homem, mas seu corpo ansiava pelo dele.
         - Se tiver vontade de testar seus encantos outra vez, no teste com Guido - Nico preveniu, quebrando o silncio. - Pode conseguir uma resposta que no espera.
A menos que Olvia tenha dito a verdade e a idia de ser maltratada a excite.  isso? - perguntou, os olhos fixos nos seios que arfavam incontrolavelmente. -  isso
que est procurando? Voc tem ido muito ao cinema... - continuou, sem piedade. - Por mais desejvel que seja, no  bastante para me fazer perder a cabea e possu-la
neste instante. - Depois riu, cnico. - Quando fao amor, prefiro o conforto de lenis limpos e uma mulher perfumada em meus braos.
         A insinuao fez com que Sharon ficasse vermelha.
         -  para ter uma vida de luxo que voc faz coisas como esta? - perguntou, revoltada. - Se , podemos entrar num acordo que nos beneficiaria a ambos...
         A idia lhe veio  cabea de repente e resolveu p-la em prtica antes que perdesse a coragem. Engolindo o medo, ela se aproximou de Nico, os lbios entreabertos,
e segurou o colarinho aberto da camisa.
         - Voc poderia fazer uma poro de coisas, se tivesse um milho de libras s para voc.
         - O que est sugerindo? - Ele no se moveu, o olhar no revelando nada. Parecia uma esttua de pedra, sem remorsos, nem piedade, esmagando tudo que encontrasse
pelo caminho. - Que eu traia os outros?
         Sharon encolheu os ombros, tentando fingir calma.
         - Por que no? Ou vai me dizer que existe honra entre marginais? - Falou com suavidade, mas o comentrio encontrou endereo certo.
         Com brutalidade, ele arrancou as mos dela da camisa.
         - E se eu concordasse? E se eu quisesse mais do que um milho de libras? Se, por exemplo, eu quisesse voc?
         Sharon sentiu uma dor no peito.
         - Eu... bem, quem sabe, podamos chegar a um entendimento - respondeu, quase sem flego, mas calou-se ao ver o brilho nos olhos dele.
         - Meu Deus, vocs so todas iguais! - Agor, estava terrivelmente zangado. - Quem pensa que engana? Fingindo ceder, fazendo um sacrifcio imenso! Sacrifcio!
Pensa que no sei que me deseja? E eu no encostaria um dedo em voc agora, nem que fosse a ltima mulher do mundo. Acha que no sei que o que excita mulheres como
voc  a fantasia de estarem sendo violentadas? Se  isso, seu homem  Guido, e no eu..
         Nico j tinha ido embora, antes de ela conseguir responder, deixando-a humilhada pela rejeio, sem compreender o que acontecera. Num instante, pensou que
ele ia engolir a isca e assim dividir seus captores; no seguinte, ele tinha virado a mesa e a acusava de tentar fazer amor com ele.
         "E era mentira?", uma vozinha perguntou dentro dela.

         Sharon estava presa h quatro dias. A esperana de ser salva comeava a dar lugar a uma profunda apatia. Os dias corriam montonos. Pela manh, Olvia lhe
trazia um balde com gua e depois a levava at a construo primitiva, um pouco afastada da casa, que servia de banheiro. A princpio, Sharon ficava terrivelmente
embaraada de se sujeitar a esse desconforto, mas, como se alimentava mal, estava cada vez mais sem energias para reagir a qualquer aborrecimento.
         Toda noite, antes de dormir, lavava as roupas que tinha usado durante o dia. Embora secassem bem, estavam encardidas. Ela se sentia maltratada e feia, mas
a preocupao com a aparncia ocupava um segundo lugar em sua mente, pois temia agora pela vida.
         Costumavam jantar na sala de baixo, e as refeies muitas vezes eram preparadas por Sharon, sob a vigilncia de seus captores. No voltara a falar com Nico
desde o dia que ele a revistara, mas percebia que ele a observava todo o tempo.
         Na tarde do quarto dia, Nico se aproximou, quando ela estava examinando as parreiras, com Guido; uma tarefa que maltratava as costas. Sharon teria se espreguiado
para aliviar a dor, se no achasse que ele tomaria esse gesto como um sinal de derrota. Os dois travavam uma luta surda, e ela sentia que seu silncio irritava Nico,
o que lhe trazia. um perverso prazer. Ele queria quebrar seu orgulho, tinha certeza disso; queria que ela sentisse um medo terrvel. Pois bem, no lhe daria esse
prazer!
         - O que  que h? - perguntou Guido, os olhos percorrendo lascivamente seu corpo, quando ela parou para descansar um instante. - O trabalho honesto no
serve para voc?
         Os outros trs do bando estavam sempre provocando-a, mas Sharon aprendera depressa ano aceitar suas provocaes. O instinto lhe dizia que tinha que tomar
um cuidado especial com Guido. Olvia parecia estar tentando atirar um em cima do outro, e s seu orgulho a impedia de contar a Nico que a moa estava mentindo,
quando dizia que tinham passado o dia inteiro juntas.
s vezes, gostaria de ficar trancada no quarto, mas Nico insistia para que sasse ao ar livre e exercitasse as pernas. No entendia por que, pois estava
convencida de que nunca sairia dali com vida. Nico ia todos os dias  cidade, esperando notcias de seu pai. Tinham lhe dado uma semana para reunir a quantia do
resgate, e j haviam passado cinco dias.
         Olivia tinha matado um dos frangos que viviam ciscando em volta da casa e Sharon fez um ensopado. Quando voltava para a casa com, Guido, sentiu o aroma
da comida. Ao entrar, viu que Nico lia um jornal, com Olvia sentada a seu lado.
         - Pelo menos, seu pai est mostrando que tem juzo - comentou ele. - No h nenhuma notcia nos jornais sobre o seu desaparecimento. S na coluna de mexericos
h uma pequena nota, dizendo que est em frias, com amigos.
         O sorriso dele deixou-a furiosa, mas continuou calada. Andou em direo  escada, e j estava que chegando l, quando ele segurou seu pulso com fora. Olhou-o,
tensa, e tentou em vo se libertar.
         - Onde pensa que vai?
         - Para o meu quarto.
         - Por qu?
         - Porque quero ficar sozinha. Alguma objeo?
         - Deixe que v, Nico. Ela no pode fugir. Nem vai tentar - disse Olvia, com um sorriso desagradvel. - Ela nem saberia o que fazer,  frouxa demais. A
vida toda, o dinheiro do pai abriu todas as portas, e ela no tem capacidade de conseguir nada por sua prpria conta.
         No era verdade, mas ela no respondeu nada. O orgulho a deixou calada, pois poderia responder que, um ano antes, Olvia teria razo, no agora.
         - Nico! - chamou Piero, entrando, assustado. - A polcia!
         Sharon sentiu uma louca esperana. Ser que estavam  sua procura? Se conseguisse chamar a ateno deles... .
         Todos estavam terrivelmente tensos, quando o velho jipe da polcia se aproximou. As armas foram escondidas, e s Guido continuou a brincar com seu canivete,
como sempre fazia. Sharon escutou o carro parar, e depois o som de vozes.
         Logo a porta se abriu e dois policiais entraram, os olhos atentos, inspecionando o lugar.
         - No esto aqui h muito tempo, no ? - um deles perguntou a Nico, que estava ao lado de Sharon. Olvia tinha subido, e ela sabia que, se tentasse alguma
coisa, seria morta ali mesmo, assim como os dois policiais. Apesar disso, resolveu tentar alguma coisa, se surgisse uma oportunidade.
         - Herdei a propriedade de um tio - explicou Nico. - Est em decadncia, mas esperamos fazer com que d algum lucro.
         - Vocs no parecem ser daqui.
         - Somos de Roma, mas prefiro o campo  cidade, e meus irmos tambm.
         O homem olhou para Sharon, enquanto seu companheiro andava pela sala.
         - Sua irm?
         Abenou o fato de falar italiano, Sharon comeou:
         - No, eu...
         - Ela  minha mulher - Nico interrompeu depressa, passando o brao em volta dos ombros de Sharon, num aparente gesto de amor..
         Mas ela sentia os dedos de ao, que a avisavam para se comportar.
         - Querem ficar e comer conosco? - convidou Nico.
         Os dois homens recusaram e se encaminharam para a porta. Sharon lutava para se livrar, rezando para um deles se virasse e percebesse sua aflio. Mas nenhum
deles se virou. Guido acompanhou-os at o carro, e ela escutou o jipe se afastar. Sua esperana morreu, esmagada por uma terrvel depresso.
         Nico soltou-a quando Olvia desceu e olhou para os dois com desconfiana. Era evidente que a italiana sentia cime, mas Sharon no tinha energia para se
aproveitar do fato. A certeza de que ia morrer a obcecava; no importava o que o pai fizesse, no conseguiria salv-la. Notou que Nico a olhava como se estivesse
preocupado com ela. Por que ele estava fingindo?
         Sharon perdera o apetite. Riu, amargurada, quando Nico ordenou que comesse o que estava em seu prato.
         - Por qu? Vocs vo me matar de qualquer jeito.
         - Ela no  to burra como parece - comentou Olvia, dando uma risada cNico. - Ou, quem sabe, quer provocar sua piedade, caro. Deve ter lido alguma histria
em que o prisioneiro e seu carcereiro se apaixonam.
         - Precisa se alimentar - Nico insistiu, sem tomar conhecimento das palavras de Olvia. - Ela tem feito exerccio?
         - Trabalhou esta tarde no campo - disse Guido.
         - E, todas as noites, um de ns d uma volta com ela. - acrescentou Olvia.
         - Vai comer, ou quer que eu a obrigue?
         - Teve alguma notcia de Londres? - perguntou Olvia.
         - At agora, o velho tem seguido todas as nossas instrues. Est tentando conseguir o dinheiro e espera ter tudo dentro do prazo.
         -  bom, mesmo. Seno, somos capazes de mandar a filhinha de volta num caixo - comentou Olvia, que parecia encantada com a idia.
         Sharon afastou o prato, sem conseguir comer, e Nico resolveu no insistir.
         - Quanto mais depressa isso acabar, melhor - disse Guido. - Estou cheio desse lugar. No vejo a hora de voltar para Roma!
         Enquanto comiam, a noite tinha cado, escura e sem lua.
         - Venha! - ordenou Nico a Sharon. - Esta noite, eu irei com voc.
         Ela queria recusar; tinha visto o olhar ressentido de Olvia e de Guido. Quando os dois saam com ela, a italiana sempre sumia, deixando-a a ss com aquele
homem detestvel que a devorava com os olhos.
         O ar estava parado e quente l fora. Sharon daria qualquer coisa por um banho de chuveiro. Teve vontade de rir, ao se lembrar dos incrveis ltimos desejos
dos condenados  morte. Parecia que no ria h sculos! Sentia que, aos poucos, seu amor-prprio e sua vontade estavam se desintegrando.
         Nico caminhou na direo do rio, como se pudesse ler seu pensamento. Nunca mais tinha repetido o convite para ela se banhar no rio, e Sharon no teve coragem
de pedir.
         - Sabe de uma coisa? Voc  muito diferente do que eu pensava - disse ele, o comentrio pegando-a desprevenida.
         - Como? - perguntou, achando mais fcil conversar na escurido, sem ver seu rosto.
         - De vrias maneiras.  mais vulnervel, mas tambm mais forte.
         - No sou a vigarista rica que esperava? A garota mimada que acha que tudo tem seu preo? No sou idiota, conheo as estatsticas; sei por que estou aqui,
e no pense que vai conseguir me fazer implorar por clemncia, porque sei que pretendem me matar..
         - E se no soubesse?
         - Ento,  isso que quer? Quer que eu rasteje a seus ps? Por qu? Para contrastar com a violncia de Olvia? Nunca implorei nada a homem algum, e no 
agora que vou comear!
         - No, mesmo? - Nico virou-se para ela. A lua surgia brilhante no cu, iluminando o sorriso cnico. - No foi isso que eu soube. Corre por a que voc 
uma das mulheres mais fceis... e tambm a melhor. E que, quando quer um homem, o consegue...
         - Mas no quero voc! - protestou, com uma nfase exagerada. Sentia-se muito ferida como se ele a tivesse esbofeteado. Sentiu uma imensa sensao de perda
ao se lembrar de que um dia havia pensado que entre eles existia algo especial.
         De repente, Nico segurou-a por baixo dos braos e Sharon se viu suspensa no ar. Dessa vez, percebeu que tinha ido longe demais. Ser que ele a mataria?,
pensou, assustada. Talvez fosse melhor mesmo, acabar de uma vez com aquela tortura.
         - Sharon... - Havia piedade na voz dele e ela baixou os olhos, no querendo acreditar.
         - O que h? Mudou de idia? Por que no conta a Olvia? Acho que ela no vai hesitar em se livrar de mim, quando chegar a hora.  capaz at de gostar!
         Sabia que suas palavras s poderiam aumentar a irritao de Nico, mas, surpreendentemente, no foi o que aconteceu.
         - Talvez sim - disse ele, devagar. - E voc est fazendo de tudo para me fazer perder o controle... - O luar mostrou o desprezo m seus olhos, mas, em seguida,
ela estava nos braos dele, sentindo o calor de seu corpo, enquanto a beijava no pescoo.
         Sharon ainda tentou afast-lo, mas Nico era muito forte. Comeou a sentir medo de suas carcias sensuais. Aos poucos, o medo foi se transformando em um
louco prazer.
         Sem se dar conta do que fazia, Sharon entreabriu os lbios, um convite mudo, e seu grito de susto foi abafado pela boca de Nico, quando, com sofreguido,
ele cobriu seu seio com a mo morena. Ela esperava violncia, mas isso era outra coisa, e no tinha condies de lutar contra a atrao incontrolvel que sentia
por aquele homem, apesar de tudo.
         Nico desabotoou seu suti, para poder sentir a carne palpitante e jovem. Sharon no o rejeitou, mesmo sabendo que nunca permitiria a nenhum outro homem
chegar to longe. Estava cada vez mais indefesa diante do enorme desejo que a consumia. Ao mesmo tempo que queria se libertar daquela sensao, se abraava a ele,
incapaz de pensar, gemendo de prazer.
         - Nico! - Era a voz de Olvia. Ele reagiu mais depressa do que ela, e, quando a moa surgiu, os dois j estavam separados. Mas Sharon sabia que Olvia no
tinha sido enganada.
         - Estvamos preocupados com vocs dois; demoraram muito.
         - Preocupados... ou curiosos? - perguntou Nico.
         - Voc andou fazendo amor com ela! - Olvia acusou, furiosa. - Andou fazendo amor com essa vagabunda!
         - Isso no  crime, cara. E no venha me dizer que tem esse sentimento burgus que se chama cime.
         Perturbada demais pelo que acabara de acontecer, Sharon no percebera o dio nos olhos de Olvia. Mas, mais tarde, quando a outra a trancou no quarto, soube
que tinha arranjado uma feroz inimiga.
         Olvia merecia Nico. Agora que o conhecia bem, Sharon sabia que o que sentia por ele era s uma atrao fsica. E no adiantava esperar um dia se vingar,
porque planejavam mat-la..
         S tarde demais, percebeu o que eles tinham feito a ela: estava comeando a aceitar a prpria morte. Os catlicos, quando se sentiam perto da morte, costumavam
se preparar, mas Sharon no sabia o que fazer. Ser que devia rezar? Ou perdoar os inimigos? Isso, no era capaz de fazer..
         S conseguiu adormecer quando os primeiros raios do sol comearam a clarear seu quartinho frio e triste. E sonhou que estava no colo do pai e ainda era
uma menininha.



CAPTULO V

         - No  bem com isso que est acostumada, ? - provocou Olvia, mas Sharon estava decidida a no reagir aos insultos da outra, que a observava enquanto
ela se despia e se lavava precariamente com a gua do balde. Naquela manh havia mais ressentimento na voz da italiana, e Sharon adivinhava a razo.
         Desde o primeiro instante do seqestro, Olvia se preocupara em dizer que Nico era seu homem, mas era evidente que no estava to segura do amor dele, como
queria dar a entender.
         - Meu Deus, como est mudada! - Olvia continuou a provocar, quando Sharon permaneceu calada. Aprendera que, assim, no dava pretexto para que sua torturadora
se vingasse. - Agora, nem parece mais aquela gr-fininha de antes, hein? Duvido que aqueles seus admiradores iam querer voc, se a vissem agora; mesmo que estivessem
mais interessados no dinheiro do papaizinho...
         Aquelas palavras atingiram Sharon, sem que a outra desconfiasse. Sempre receara que as pessoas a procurassem, no por ela mesma, mas por causa da fortuna
do pai. Por isso, teve uma reao impensada, saindo do prudente silncio.
         - O que importa? Est com medo de que Nico tambm queira o meu dinheiro e resolva trair vocs?
         Sabia que era uma coisa impossvel, mas valia a pena insinuar, s para irritar Olvia.
         - Ele no ousaria, porque a organizao o mataria. E tambm duvido de que queira voc - acrescentou, desdenhosa. Aproximando-se de Sharon, que estava mais
frgil ainda por ter perdido alguns quilos no cativeiro, deu-lhe um forte safano, jogando-a no cho. - Ele est s se divertindo s suas custas. Disse que queria
s ver se era to boa na cama como dizem.
         - E voc no se importa? Ou no tem coragem de protestar? - Soube que tinha atingido o alvo, quando viu a expresso da italiana mudar.
         Mas, nesse momento, Guido chamou, l embaixo.
         - Nico  meu! - avisou Olvia. - No se meta com ele!

         Enquanto andava entre as vinhas, com Guido atrs dela, Sharon se lembrava das ltimas palavras da outra. "Pois eles podem ficar um com o outro", pensou,
furiosa. Bem que se mereciam! Estava comeando a se assustar com a constante ateno de Guido, que nunca desgrudava os olhos dela. s vezes, ficava tanto tempo olhando
para os seus seios que Sharon tinha vontade de gritar. Nunca tentara toc-la, mas ela sabia que a desejava. E era um homem evidentemente perigoso.
         Na hora do almoo, Sharon sentia-se encalorada e cansada. Foi com alvio que ouviu Guido avisar que podia parar o trabalho. Eles eram todos profissionais
de verdade, pensava, enquanto voltava para casa; chegavam  perfeio de trabalhar mesmo nos campos para no levantarem suspeitas, mesmo sabendo que no haveria
mais ningum l para a colheita.
         - Talvez, quando seu pai pagar o resgate, eu compre uma fazendinha assim para mim - disse Guido. - Quero uma terrinha e uma mulher rechonchuda.
         Sabia que ele no falava a srio; mesmo assim, respondeu:
         - Pensei que o dinheiro fosse para a causa, embora no atine que causa  essa.
         Sharon no tinha percebido que Olvia estava por perto, e logo se aproximou, irritada.
         - Nossa causa  limpar o mundo de parasitas como voc, dividir igualmente as riquezas e acabar com a corrupo e os privilgios!
         Subitamente, algo chamou a ateno de Sharon, l embaixo no rio. Olhando melhor, viu que era Nico, que saa da gua, completamente nu, a pele bronzeada
brilhando ao sol. Estava de costas para eles, e Sharon no conseguiu evitar uma exclamao abafada, quando ele andou, com aquele passo elstico que ela tanto admirara,
at onde tinha deixado as roupas. Era todo msculo, no tinha nem um grama de gordura a mais! Sharon havia se esquecido de Olvia, e agora a outra parou  sua frente,
os olhos escuros carregados de dio.
         - Voc o deseja. Estou vendo na sua cara! Mas Nico  meu! Olhe s - disse para Guido. - Ela parece uma cadela no cio!
         Aquelas palavras grosseiras foram demais para Sharon, que j estava emocionada com a viso de Nico. Revoltada, avanou para a italiana. Mas Guido foi mais
rpido e, segurando seu brao, torceu-o com violncia. Depois, deu aquele sorriso canalha, que sempre a deixava arrepiada de medo.
         Durante todo o almoo, Sharon esperou que Olvia fizesse alguma referncia maldosa  cena, mas, para sua surpresa, a outra no disse nada. Olvia conversou
mais com Piero do que com Nico, e Sharon desconfiou de que talvez ela quisesse lhe fazer cime. No havia nada no comportamento de Nico que sugerisse que eles fossem
amantes, mas Sharon suspeitava de que, se no eram agora, muito provavelmente tinham sido, e a italiana desejava ardentemente que voltassem a ser.
         Depois da visita da polcia, o grupo permitia a Sharon uma maior liberdade. Segundo Nico, no era provvel que os policiais voltassem, e havia pelo menos
uma pessoa sempre de guarda, com a arma preparada. Sharon tinha sido avisada de que, se tentasse escapar; seria derrubada com um tiro. Embora estivesse convencida
de que, no fim, planejavam mat-la, no queria provocar e se arriscar.
         Depois do almoo, Nico avisou que precisava ir at a cidade. Sharon j tinha reparado que ele era o nico que se comunicava com Roma e, presumivelmente,
com seu pai. Apesar de os outros no parecerem satisfeitos com isso, ningum ousava se rebelar.  Ele os dominava, infundindo medo aos companheiros.
         Nem bem quinze minutos depois de Nico partir, Olvia disse a Guido que Nico tinha deixado ordens para que ela levasse Sharon at o rio e a vigiasse.
         - Ele no me disse nada - foi sua imediata reao.
         Olvia riu, debochada.
         - Por que ele deveria? Voc no tem nada que questionar as ordens de Nico.
         Sharon bem que adoraria dar um mergulho na gua lmpida e tirar o encardido da pele. Os banhos que improvisava com os baldes eram melhores do que nada,
mas na realidade no podiam ser chamados de banhos. Sentiu o rosto queimando ao se lembrar de Nico saindo do rio, o corpo firme e bronzeado, os ombros largos, os
quadris estreitos.
         A gua estava to gostosa omo imaginava. Quase tinha se esquecido como era maravilhosa se sentir completamente limpa. Olvia lhe dera um sabonete e at
mesmo xampu, e ela lavou os cabelos, ainda espetados, depois de terem sido to mal cortados. At a frieza da gua lhe fazia bem, despertando um vigor novo. Teria
achado ridcula a idia de que um banho de rio podia ser um luxo, se lhe falasse isso uma semana atrs.
         Quando saiu da gua, no viu Olvia. Era estranho, pois a mulher costumava levar muito a srio o seu papel de guardi, mas Sharon, ingenuamente, ficou aliviada,
sentindo-se mais livre.
         Estava comeando a se enxugar, quando um homem surgiu de uma moita prxima. Enrolando a toalha no corpo, viu, horrorizada, que Guido se aproximava.
         Seu primeiro reflexo foi sair correndo, mas o medo deixou-a sem ao. Ele sorria sinistramente ao chegar perto dela, arrancando a toalha.
         - No adianta gritar - foi logo avisando. - Olvia no vai escutar. Nem Piero. No devia ter olhado para Nico daquele jeito. Olvia no gostou nada.
         Ento, a outra tinha, deliberadamente, preparado essa cilada! Levara Sharon para o rio, sabendo que Guido viria atrs dela, sabendo que Nico estava longe.
         Sharon sentiu um estremecimento de medo. Tentou fugir, mas no foi bastante rpida e Guido conseguiu agarr-la. Ele era muito forte, e Sharon parecia um
brinquedo em suas mos, apertando-a pela cintura enquanto ela se debatia, o hlito forte e desagradvel contra a pele macia do pescoo.
         "Eu morrerei se ele me possuir!", pensou, mortalmente assustada. No agentaria! Como um animal encurralado, lutava com todas as foras, arranhando o rosto
dele com suas unhas. Sua resistncia era to grande, o medo dando-lhe foras extras, que Guido afrouxou um pouco o abrao. Sharon notou que ele levava a mo ao cinto,
mas no percebeu imediatamente o que planejava fazer, at ver o brilho metlico da lmina do canivete.
         Recuou instintivamente, o olhar fixo no metal, o peito oprimido pelo medo, sem conseguir pensar. Devagar, Guido avanou para ela, que, como hipnotizada,
esperava imvel.
         O homem deu uma risada gutural, gozando o pavor de Sharon e agitando o canivete na frente dela. Num ltimo esforo, Sharon tentou correr, mas ele foi mais
rpido e agarrou-a.
         - Guido!
         A voz de comando era spera e no admitia desobedincia. Sharon virou-se e viu Nico que corria para eles, com uma expresso que revelava toda a fria que
sentia.
         Sua chegada deu foras a Sharon para que tentasse se libertar, mas ela no esperava a reao violenta de Guido, que a atacou com furor. O canivete rasgou
a toalha e atingiu a carne. Antes de perder os sentidos, Sharon ainda escutou a voz de Nico:
         - Piero, tire Guido da minha frente, ou mato esse desgraado.
         Quando voltou a si, estava deitada no Land Rover. Ao volante, Nico se preparava para partir e Olvia discutia com ele.
         - Por que tem que lev-la  cidade? Foi s um arranho.
         -  bem mais do que isso, Olvia. No vamos querer que ela morra de infeco, no ? E, agora, me diga o que ela estava fazendo no rio, sozinha com Guido?
Dei instrues explcitas...
         - Talvez voc devesse dar essas instrues a ela, e no a mim -  respondeu a mulher, mal-humorada. - Caro, deixe que eu cuide do ferimento. E se ela tentar
escapar enquanto estiverem na cidade?
         - Ela no se atrever. - Sharon estremeceu com o tom da voz dele e continuou de olhos fechados. - Mas um mdico tem que examinar esse ferimento. Talvez
precise levar pontos, e ela no ser til para ns se morrer. O pai est querendo provas de que continua viva. At ter essas provas, no dar o dinheiro.
         - Por que no disse isso antes? - resmungou Piero. - Voc tinha falado que tudo estava correndo de acordo com os planos.
         - E est correndo, mesmo, mas vocs no so assim to inexperientes nestas coisas para no perceberem que ele  um homem de negcios muito esperto, que
no se deixa enganar com facilidade. No lugar dele, eu tambm pediria mais provas de que a filha continua viva.
         - E como vamos fazer isso? - perguntou Olvia.
         - Vamos fazer uma gravao dela lendo uma notcia do jornal de hoje. Isso bastar para convenc-lo.
         - E depois, ele vai mandar o dinheiro? Foi por isso que voc insistiu em mant-la viva?
         Nico tinha insistido! Isso significava que os outros estavam fazendo presso para que ela morresse? Com o rosto grudado ao assento do carro, Sharon tentou
no dar a perceber que tinha recuperado a conscincia.
         - Acho que  a coisa mais sensata a fazer - disse Nico, e ela teve a impresso de que havia uma sria preocupao em sua voz. - Roma tinha me garantido
que vocs trs eram veteranos nesse tipo de operao, mas estou vendo que so mais desleixados do que os calouros. Vou ter que comunicar isso ao comit, quando tudo
terminar. Guido j ignorou minhas ordens uma vez.
         Mesmo sem ver os rostos dos dois, Sharon sabia que Olvia e Piero tinham ficado abalados com as crticas de Nico. Embora tivesse inteira noo do perigo
de sua situao, no pde deixar de admirar o controle que ele exercia sobre o bando. Ele os manipulava como marionetes, apesar de serem todos muito perigosos. A
idia fixa de vingana, que a ajudara a se conservar inteira e evitara sua mente de se desintegrar nos primeiros dias, tinha agora desaparecido. Era impossvel atingir
aquele homem to esperto e que parecia indestrutvel. Ao mesmo tempo, lembrou-se de que todos tm seu calcanhar-de-aquiles; o problema era se algum dia conseguiria
descobrir qual a fraqueza de Nico...
         A vibrao do jipe provocou uma dor forte, e novamente ela perdeu os sentidos, s voltando a si quando tinham deixado bem para trs a estrada poeirenta.
         - Como est se sentindo? - Nico tinha parado o Land Rover e olhava para ela. Tirou a camisa e entregou a Sharon. - Vista isso.
         Depois, vasculhou o bagageiro do jipe e encontrou um velho jean. - Ponha a cala. Deve ficar enorme, mas  melhor do que nada. O que  agora? Ser que vai
recusar, s porque a roupa  minha? Prefere continuar nua?
         - Eu... eu gostaria que voc virasse de costas.
         Era difcil para ela dizer aquelas palavras, porque a dor no peito estava muito forte e se sentia terrivelmente fraca.
         Ficou surpresa quando ele concordou. Enquanto lutava para abotoar a camisa, o sangue continuava a pingar.
         - Tem noo do que podia ter acontecido, se eu no aparecesse? Voltei porque um pneu furou. Foi a sua sorte.
         - Sim. Guido teria me violentado..
         - No foi bem isso que me contaram. Olvia disse que voc provocou Guido at ter o que estava procurando.
         - No  verdade!
         - No? No me diga que no tinha percebido que ele desejava voc.
         - Eu... eu sabia - respondeu, num murmrio. Mas no ia dizer a ele como Olvia a enganara. Nico podia pensar o que quisesse. Ela no se importava!
         - Voc sabia, e mesmo assim desfilou diante dele sem roupa? O que pensava que ele era? Algum dos seus amiguinhos domesticados? Pois deixe que eu esclarea
uma coisa: dizer que Guido  um animal  ofender os animais. Mas no sou ingnuo e sei que existem mulheres que gostam de homens assim. - Notou que Sharon estava
abalada e mudou de tom: - Est bem, voc no  uma delas, mas tem bastante experincia para reconhecer o tipo. Portanto, no devia ter encorajado o homem de maneira
nenhuma.
         Encorajado! As lgrimas saltaram dos olhos dela, sem que conseguisse evitar, e protestou, com todas as foras:
         - Mas eu no encorajei ningum!
         - No? No foi o que eu soube. Sabe muito bem o efeito que seu corpo pode ter em um homem. Ele precisaria ser de pedra para no enlouquecer. E voc ainda
fica se exibindo...
         - Me exibindo? Eu estava tomando banho no rio. Pensei que Olvia estava na margem. - Caiu no banco, exausta do esforo, o rosto lvido, o corpo agitado.
- Mas que adianta lutar, quando o poder est nas mos dos outros.
         - Pensei que o poder estava nas suas mos esta manh - ele disse, suavemente. - No sabe o poder que uma mulher pode ter sobre um homem...
         Ela teve vontade de dizer a ele que, segundo as arengas de Olvia, no novo mundo que estavam construindo, as mulheres teriam os mesmos direitos, mas subitamente
percebeu que, enquanto os outros trs viviam repetindo as mesmas coisas sobre as maravilhas de sua organizao, Nico nunca comentara nada. Na verdade, muitas vezes
parecia aborrecido e distante. Era estranho, muito estranho...


         CAPTULO VI

         O ferimento sangrou durante todo o caminho at a cidadezinha. Nico guiava depressa, mas com prudncia, e, embora o Land Rover fosse bem menos confortvel
do que o elegante Mercedes, Sharon se lembrou das emoes que sentira quando passaram pela mesma estrada perto da villa..
         Todos aqueles romnticos sentimentos estavam agora mortos, destrudos pela realidade implacvel. Uma ou duas vezes, Sharon pensou em se jogar do jipe, mas
a grande perda de sangue a enfraquecera. A frente da blusa estava toda vermelha, comeava a se sentir zonza quando entraram na cidadezinha empoeirada, to tipicamente
italiana. Com suas ruelas estreitas e casas altas, seus varais de roupa, e velhas sentadas na calada, sem se interessarem pelo Land Rover que passava.
         O corao de Sharon se apertou, ao notar que se dirigiam para o lado mais pobre da cidade. Tinha tido esperana de poder avisar o mdico de que era prisioneira,
mas a esperana acabou quando Nico parou em frente a uma casa decadente, a pintura das paredes descolando.
         - O dr. Michello foi um excelente cirurgio. Infelizmente, deu para beber. Se est pensando em pedir. sua ajuda, quero desde j desiludi-la. Direi a ele
que  minha esposa e que seu ferimento  o resultado de uma briguinha conjugal. A Itlia  ainda uma sociedade em que os machos mandam, e tudo que disser ser considerado
histeria feminina, mesmo que ele esteja razoavelmente sbrio. Tome, use isso tambm.
         Deu a ela um agasalho cinzento. Quando viu que era difcil vesti-lo sozinha, ajudou-a como se fosse uma criana, puxando o zper com cuidado, sua mo roando
os seios de Sharon e provocando nela a mesma emoo que sempre provocava. Ela estava com frio, e o calor da Jaqueta lhe fez bem, especialmente quando descobriu que
o que Nico lhe dissera sobre o mdico era verdade.
         Ele a fez passar na frente de outras mulheres que esperavam para ser atendidas, conservando-a bem junto ao corpo para que tivesse conscincia da arma que
encostava em suas costelas. Sem a menor cerimnia, interrompeu o mdico, que falava a uma das clientes.
         Cmo Nico insistisse para ser atendido imediatamente, foram levados at um modesto consultrio, e Sharon recebeu ordem de tirar a camisa.
         Ela olhou significativamente para Nico, que se virou de costas, enquanto o mdico a examinava com surpreendente competncia.
         - Um ferimento bem grande, parece... mas no  profundo. Vou lhe dar uma pomada para ajudar a cicatrizar e desinfeccionar umas plulas. - Escreveu a receita,
que entregou a Nico, e depois se virou para Sharon: - Na prxima vez, seja mais boazinha hein?i
         Ela esperava que Nico guiasse de volta para a fazenda, logo que comprassem os remdios, mas, para sua surpresa, ele estacionou o Land Rover do lado de fora
de um pequeno hotel, segurando seu  brao com firmeza para que no tentasse fugir.
         - Vamos passar a noite aqui. Podemos fazer uma gravao para mandar a seu pai, e amanh de manh o dr. Michello examinar o ferimento.
         - No tem medo que eu tente escapar?
         - Como poderia? - disse ele, com tal calma que a deixou furiosa. - Voc no tem dinheiro, nem passaporte. Aonde iria?  polcia? - Deu uma risada. - No
acredito. - Bateu no pequeno volume no peito que escondia a arma. Ainda segurando o brao dela com fora, entrou no hotel e aproximou-se do balco..
         Sharou ouviu quando ele pediu um quarto com duas camas, e sua mente comeou a funcionar febrilmente, procurando descobrir uma maneira de escapar. Olhou
para ele, indignada, e reclamou baixinho, enquanto subiam a escada, Nico sempre a obrigando a ficar perto.
         - No vou ficar no mesmo quarto que voc. Eu o odeio!
         - No seja boba. E no me confunda com Guido - acrescentou, olhando-a da cabea aos ps.
         Sharon corou. Com aquela roupa, os cabelos espetados e o rosto sem qualquer pintura, devia estar mesmo muito pouco atraente.
         - No, acho que preferia Olvia - reconheceu, sentindo-se feia e desajeitada.
         - Eu ia? Por qu?
         Ela ficou um pouco indecisa e, quando respondeu, foi com tal falta de tato que se sentiu envergonhada:
         - Bem, ela  su... sua amante... sua mulher.
         - Ela ? - Nico parou e, para surpresa de Sharon, fez com que desse meia-volta e a levou novamente at o saguo.
         L fora, o sol brilhava. Depois da relativa obscuridade do hotel, ela ficou ofuscada pela claridade e tropeou. Nico teve que ampar-la.
         - Aonde estamos indo? - Ser que ele tinha mudado de idia e decidido no correr o risco de ficar durante a noite na cidade?
         Mas Nico no respondeu e ela foi obrigada a andar mais depressa, para acompanh-lo. Passaram pelo Land Rover, atravessaram a praa onde ficava a igreja
medieval e entraram numa ruela onde havia algumas pequenas lojas.
         Na vitrine de uma delas, estava um vestido de linho, bem cortado e provavelmente caro. Para surpresa de Sharon, ele a fez entrar. Atnita, ouviu-o explicar
 balconista que eram turistas ingleses e que tinham chegado at aquela cidade por acaso.
         - Minha mulher teve um pequeno acidente e precisa de roupa nova.
         Rapidamente e demonstrando muito bom gosto, Nico escolheu duas blusas de algodo, uma verde-esmeralda e outra cor de lavanda, que combinavam perfeitamente
com a cor da pele e dos cabelos de Sharon.
         - Temos tambm essa saia que combina com as blusas - disse a vendedora.
         - Vamos levar.
         Sharon teve um impulso de pedir ajuda  moa, mas, como se adivinhasse seus pensamentos, Nico agarrou-a pelo brao com fora e deu-lhe um olhar de aviso,
enquanto levava a outra mo ao bolso onde ela sabia que guardava o revlver..
         Logo entraram novamente na calada, e ela havia deixado escapar mais uma oportunidade. Voltaram rapidamente ao hotel. No quarto, Nico tirou do bolso um
mini-gravador e deu uma folha de jornal a Sharon.
         - Leia.
         Pensou em recusar, mas seria tolice. Leu durante uns dez minutos, at Nico mandar parar. Ele guardou a fita num envelope e sorriu.
         - timo! Isso talvez encoraje seu pai a agir com mais pressa. Os outros esto comeando a ficar impacientes.
         - Mas nada consegue abalar voc, no ? Estou surpresa que no tenha me feito dar alguns gritos de pavor, para aumentar a emoo.
         Reparou, atnita, que ele ficava vermelho. Ento, afinal de contas, ele tinha algum sentimento! Ia provoc-lo mais um pouco, quando ele atirou as roupas
na cama e fez um gesto em direo ao banheiro.
         - Quando estiver pronta, me avise, que vou fazer o curativo que o mdico mandou.
         Sharon olhou, indecisa. O ferimento era um pouco abaixo do busto, e s pensar nas mos de Nico em seu corpo a fazia estremecer.
         - Eu mesma posso fazer o curativo.
         Nico sorriu, uma sombra de malcia passando por seus olhos.
         - Lgico que pode, mas ser que vai? Voc poderia convenientemente "esquecer" s para ficar doente e nos criar mais problemas.
         Sharon no podia negar que aquele pensamento lhe havia passado pela cabea. Se piorasse e morresse, e seu pai pedisse mais uma prova de que estava viva,
poderia ao menos evitar que todo aquele dinheiro casse nas mos deles.
         - Como no posso confiar em voc, eu mesmo farei o curativo.
         Ela foi para o banheiro, mas ainda no tinha fechado a porta, quando ele falou:
         - Ponha a saia e a blusa lavanda. Se me lembro bem, tem pernas bem-feitas... entre outras coisas...
         Sharon no tinha a menor inteno de obedecer, mas, quando saiu do delicioso banho quente e pegou a camisa de Nico, manchada de sangue, desistiu da idia.
A roupa nova ficou perfeita. Olhou-se no espelho: a aparncia era bem melhor, embora estivesse mais magra e com um ar de extrema fragilidade.
         Quando voltou ao quarto, sentia os nervos  flor da pele. Nico estava deitado numa das camas, lendo o jornal. Levantou-se quando ela entrou, examinando-a.
         - A cor combina com seu tipo - disse, afinal. - Mas acho que podia ter dispensado a blusa, se tenho que fazer o curativo. - Sem dar tempo a Sharon de impedir,
desabotoou sua roupa. Ela ficou com o rosto em fogo e recuou, confusa.
         Nico no tomou conhecimento da reao. Segurando-a com firmeza pelo ombro, comeou a passar a pomada na ferida. Seus dedos de ao estavam agora surpreendentemente
suaves, e um doce torpor comeou a tomar conta dela.
         - Sharon?
         Ouviu seu nome, quando tinha a impresso de que o quarto comeava a rodar. Levantou os olhos para ele, que a observava com preocupao. Quis dizer que estava
tonta, mas no houve tempo, pois, de repente, Nico e tudo  sua volta desapareceu e ela foi envolvida pela escurido.
         A primeira coisa que percebeu ao despertar do desmaio foi o ambiente estranho. Piscou, ofuscada pela forte luz do sol que entrava pelas janelas abertas,
e depois olhou em volta. Tinha sonhado que havia sido seqestrada, s podia ser um pesadelo! Escutou barulho de gua no banheiro e seu olhar caiu sobre a saia e
a blusa que usara na vspera, agora dobradas em cima de uma cadeira, e a realidade voltou, impiedosa. Seu corpo nu ficou tenso sob os lenis.
         No se lembrava de ter-se despido  noite.
         - timo, voc acordou.
         Ela gelou, agora perfeitamente consciente de estar nua sob os lenis.
         - Voc tirou minha roupa? - perguntou, num impulso.
         - Voc desmaiou, e eu achei que seria uma pena amassar essa bela roupa. No  a primeira vez que um homem faz isso e duvido que seja a ltima... embora
minhas mulheres no costumam desmaiar em minha companhia.
         - No sou uma de suas mulheres e no quero que fale de mim como se fosse.
         Nico ficou repentinamente srio e se aproximou devagar da cama, sem ligar para o fato de que tinha apenas uma toalha em volta da cintura. Sharon tentou,
sem conseguir, desviar os olhos daquele corpo atltico, que lembrava uma esttua grega.
         - Ento, no quer, hein? - Parou ao lado da cama. - Por qu? Porque no consegue me dominar como dominou seus outros amantes? Ou  porque eu consigo que
voc reaja como nunca reagiu com eles?
         - No  verdade! Voc no consegue! - As palavras escaparam antes que tivesse tempo de pensar, e engoliu em seco quando a cama cedeu ao peso dele.
         Colocando os braos de cada lado do corpo dela, ele olhou fixamente para seu rosto afogueado.
         - No, mesmo - Quando se inclinou para ela, Sharon comeou a mover freneticamente a cabea, para escapar daqueles lbios que provariam, sem sombra de dvida,
que era uma mentirosa.
         - Pare de bancar a virgem!
         As palavras eram mais brincalhonas do que irritadas. Sharon tentou protestar quando ele arrancou o lenol, terrivelmente embaraada com a expresso de intensa
admirao que via nos olhos cinzentos.
         - Menina esperta! Sabe que um homem deseja mais uma coisa quando tem que lutar por ela, no ? - Olhou para as marcas do biquni. - Acho incrivelmente ertico
pensar que estou vendo algo que voc escondeu dos outros. Muito ertico... - repetiu, os dedos deslizando pelas curvas dos seios e provocando nela ondas intensas
de prazer.
         Contra a vontade, Sharon continuou passiva. No havia nada que pudesse fazer, pensou, com amargura. Era o preo que pagava por ser inexperiente; se tivesse
tido muitos amantes como ele sugeria, talvez soubesse como resistir  enorme atrao que sentia por Nico, ou pelo menos disfarar, mantendo uma aparncia de indiferena.
Certamente, uma mulher com experincia no seria assim vulnervel a uma carcia.
         - Voc est tremendo.
         -  porque odeio voc. Odeio e desprezo!
         - Odeia, mesmo? - Havia divertimento misturado  irritao no rosto de Nico, mas Sharon no teve tempo de pensar no porqu de se mostrar to zangado. Inesperadamente,
ele segurou seu rosto com as duas mos e beijou-a apaixonadamente.
         Sharou ainda tentou protestar, mas seus gemidos foram abafados por beijos. Seu corao comeou a bater feito louco e, como se pressentisse o que ela sentia,
Nico tornou-se menos violento. Agora, excitava seus lbios numa carcia doce, pedindo a rendio total, enquanto acariciava os bicos dos seios.
         Sharon tinha a impresso de que em suas veias corria fogo lquido, um desejo intenso fazendo o corpo frgil vibrar. Sem poder mais se controlar, comeou
a beijar o peito moreno.
         - Nico... - Era um pedido de piedade, um grito de amor. Mas, repentinamente, ele se afastou.
         -  melhor que voc se vista. Temos que voltar - disse, como se nada daquilo tivesse acontecido, dando as costas para ela.
         Sharon levou um choque. Tinha vontade de gritar, de xingar, de... Mas para qu?, perguntou a si mesma, desalentada. Para que ele lhe desse o prazer sexual
que seu corpo reclamava? Sentiu um violento enjo. Que tipo de mulher era, afinal? Sempre se vangloriara de sua exigncia, de se recusar a fazer sexo pelo sexo,
para ter emoes baratas; e, agora, sentia uma aguda frustrao porque um homem que desprezava se negava a possuir seu corpo! O que estava acontecendo? Olhou de
relance para Nico, que continuava de costas. Como ele teria despertado a mulher, que adormecia dentro dela? Antes, um corpo de homem no tinha o menor interesse
para ela; agora, ansiava para tocar a pele bronzeada daquelas costas, queria sentir os msculos dele se retesando ao abra-la, queria sentir seu desejo aumentando.
Mas, ainda assim, ela o odiava! Devia desprezar: a si mesma, mas a sensao de frustrao permanecia.
         Nico se levantou, pegou a camisa e vestiu. Depois, comeou a soltar a toalha que envolvia seus quadris. Sharon passou a lngua nos lbios secos, os olhos
grudados no corpo dele.
         - Pare de olhar para mim! - disse, irritado.
         As palavras foram como uma bofetada, e ela imediatamente desviou o olhar.
         - Vista essa roupa agora. Depressa - ele ordenou, jogando para ela as roupas que lhe tinha comprado na vspera.
         Sharon correu para o banheiro, e ele discretamente ficou de costas para que ela passasse.
         Quando voltou, Sharon encontrou o caf servido. Depois da comida da fazenda, tudo parecia delicioso. O caf estava forte e quente, e ela tomou vrias xcaras,
antes de perceber que Nico j tinha acabado de comer e estava  sua espera. Absurdamente, gostaria de prolongar o tempo ao lado dele. Ainda mais, porque tremia ao
pensar no que a esperava, ao voltar para a fazenda.
         - Vamos ao mdico, e depois quero mandar a gravao para seu pai. At agora, ele tem obedecido a todas as nossas instrues. Espero que continue assim,
para o seu bem..
         O mdico examinou superficialmente o ferimento e achou a cicatrizao satisfatria. Nico insistira em acompanhar Sharon dentro do consultrio, explicando
que o mdico no estranharia isso.
         - Os italianos se recusam a deixar suas mulheres sozinhas em companhia de outros machos; o doutor compreender meu cuidado com minha bela esposa.
         Estranhamente, aquela brincadeira a feriu mais do que tudo que ele lhe havia dito antes. Sabia que no estava nada bonita com aqueles cabelos devastados
e o rosto sem pintura. No era necessrio Nico colocar sal na ferida e caoar de sua falta de feminilidade.
         Ao sarem do consultrio, sempre agarrando o brao dela, Nico levou-a 6m direo  praa onde tinha comprado roupas. Disfaradamente, Sharon o observava,
pensando sobre as razes que o teriam levado quela situao. Era educado e instrudo; falava ingls perfeitamente e era bem menos impulsivo do que os italianos
que ela conhecia. Que controlava com facilidade os outros membros do bando era evidente; portanto, tinha qualidades de liderana a que se somavam um inegvel charme
e uma inteligncia aguda. Certamente, um homem assim poderia conseguir um bom emprego. Por que, ento, escolhera viver  margem da lei? Ser que o desafio do constante
perigo o atraa? Ou era simplesmente o dinheiro? Provavelmente, nunca saberia a resposta.
         No correio, observando-o enviar a gravao para o pai, ela teve repentinamente uma louca saudade de casa. Os olhos se encheram de lgrimas e, para sua aflio,
algumas escorreram pelo rosto plido.
         - Tome - disse ele, entregando-lhe um leno.
         Quando a viso clareou, Sharon viu que  sua frente estavam dois policiais. Nico a havia soltado e, agindo impulsivamente, ela comeou a correr em direo
aos dois homens, preocupada apenas em alcan-los antes que sassem..
         Tinha alguns segundos de vantagem sobre Nico e pensou que seriam suficientes. Sendo menor, poderia se esgueirar entre as pessoas, o que ele no faria com
a mesma facilidade. Mas, quando pensou que tinha conseguido escapar, foi agarrada e puxada violentamente para trs, quase perdendo o equilbrio.
         Os policiais olharam para eles. Vrias outras pessoas que passavam tambm olharam. Sharon ia abrir a boca para pedir socorro, mas, em vez disso, gritou
de dor, pois Nico deu uma forte bofetada em seu rosto.
         - Ela esteve andando com outro homem - explicou ele aos que olhavam sem compreender, principalmente os dois policiais. - E o homem era meu primo! A vagabunda
nega, mas, na minha vila, muita gente viu os dois juntos.
         Os policiais riram e um deles fez um comentrio que deixou Sharon vermelha de vergonha. Depois disso, ningum pareceu se importar mais com sua humilhao.
Naquele lugar, um homem tinha o direito de castigar a mulher em pblico. No Sul da Itlia, bem menos sofisticado que o Norte, uma mulher ainda era considerada propriedade
do marido.
         Segurando o brao de Sharon com tanta fora que a fazia gemer, Nico afastou-a at o jipe.
         - Tente outra vez alguma coisa parecida, e o que vai receber  uma bala, no um tapa. Puxa, voc acaba com a minha pacincia, e como! O que esperava ganhar?
         - A coisa mais preciosa do mundo: minha liberdade!
         - Foi por isso que nunca se casou? Porque a liberdade significa tanto para voc?
         - No est sendo um pouco ingnuo? - provocou, maliciosa, procurando revidar o golpe que sofrera. - Hoje em dia, se uma pessoa realmente quiser, pode encontrar
total liberdade no casamento.
         - Ento, quem sabe no arranjou nenhum idiota disposto a aceitar uma mulher de segunda-mo.
         - Segunda-mo?! Ser que nunca ouviu falar de igualdade dos sexos? No so. todos os homens que fazem questo de s levar virgens para suas camas.
         - Para suas camas, no. Mas, como esposas...  uma coisa bem diferente.
         Aquilo deixou-a furiosa. Poderia ter confessado a ele que ainda no tinha casado porque acalentava o ridculo sonho de encontrar um homem que pudesse respeitar
e honrar, assim como amar; um homem de verdade que a encorajasse a agir como mulher, sem domin-la ou querer humilh-la. Estava comeando a duvidar que tal homem
existisse...
         A volta  fazenda foi tranqila, embora, a cada quilmetro, ela se sentisse mais deprimida. Quando chegaram, no conseguia pensar em mais nada, a no ser
na morte.
         Sabia que sua vida s duraria at o pai pagar o resgate. Assim que o bando recebesse o dinheiro, seria executada sem piedade. Seno, por que haviam permitido
que ela os visse e, possivelmente, os reconhecesse mais tarde? Deviam achar que era uma perfeita idiota, pensou, amargurada. Especialmente Nco, que ainda por cima
estava se divertindo s suas custas, brincando com suas emoes, sabendo qual seria seu destino final.
         Olvia recebeu os dois em silncio mal-humorado. No queixo de Guido havia uma mancha roxa, e o dio com que ele os olhou aumentou o medo de Sharon. S Piero
parecia o mesmo.
         - Mandou a gravao?
         Olvia estava abertamente agressiva, seu olhar examinando o rosto de Sharon, que no entendia o que ela poderia estar querendo ver. Tambm, j no se importava.
A outra tinha notado a saia e a blusa novas, e, quando Nico respondeu a ela que tinha comprado, a reao foi violenta:
         - Voc deixou que ela entrasse sozinha numa loja? No acha que correu um risco intil? Quero saber por que ela ainda est aqui conosco. H alguma razo
que ns trs no sabemos?
         - No h nenhuma razo - Nico respondeu, com toda a calma, sem olhar para Sharon. - E fui eu que comprei as roupas. As que ela estava usando estavam praticamente
em trapo. Achei melhor comprar, para no chamar ateno sobre ns. Ningum se incomodaria com dois turistas, mas um homem com uma mulher vestindo roupas masculinas
evidentemente atrairiam a ateno das pessoas.
         Era evidente que Olvia no estava nada satisfeita com o rumo que as coisas tomavam. Mas tambm era bvio que no tinha argumentos para as respostas convincentes
de Nico. Nem Sharon. Desde aquela manh, estava envolvida num conflito de sentimentos que nem ela entendia bem e sobre o qual no tinha controle. Naquela manh,
surpreendera um brilho nos olhos de Nico: dio misturado a algo que no sabia explicar. Parecia admirao combinada com amargura. Se no conhecesse os fatos, poderia
at pensar que ele estava arrependido por ter tomado parte em seu seqestro. No entanto, ela no devia ser sua primeira vtima. E no devia se enganar, achando que
ele sentia por ela algo diferente.
         O jantar foi feito em silncio, com o olhar de Olvia passando de Nico para Sharon, feroz e atento. Nico parecia no tomar conhecimento da tenso no ar,
o que era no mnimo estranho para um lder. Quando a refeio terminou, Olvia foi para perto de Guido e comeou a falar com ele em voz baixa. Nico lia tranqilamente
o jornal que comprara na cidade e Sharon cuidou de limpar a mesa, sob o olhar vigilante de Piero.
         - Pare com isso! - ordenou Nico, quando ela comeou a secar a loua. - Olvia e Guido podem terminar - disse, olhando os dois com cinismo. - Como vai o
ferimento? Est tomando os remdios?
         Sharon balanou a cabea, mas no disse uma palavra. Realmente, a ferida estava cicatrizando, mas o interesse que ele fingia ter por ela a enervava. Por
que demonstrar tanta preocupao com sua sade? Ser que queria infundir nela um falso sentimento de segurana com um propsito maquiavlico? Ser que lhe causava
excitao trat-la bem para em seguida destru-la?

         J tinham se passado mais quatro dias desde que Nico a levara  cidade, e Sharon percebia que o moral entre os seqestradores estava mudando perigosamente.
Agora, quando repetiam, para ela as mximas de sua organizao, era sempre com uma denuncia feroz contra a  cultura que pretendiam destruir. Andavam todos tensos
e irritadios.
         Sharon estremeceu, quando Olvia, certa manh, se impacientou.
         - Por que ainda no tivemos notcias do pai dela, Nico? J demos um prazo grande demais. Quem sabe, ele no levou nossas ameaas a srio. Nunca tivemos
esses adiamentos antes.
         - Voc conhece as ordens de Roma. Sou o chefe dessa operao! E minha deciso  esperar.
         - Olvia tem razo - interrompeu Piero. - Quem sabe, est na na hora de apressarmos as coisas. No podemos garantir nossa segurana por muito tempo.
         - Acho que devamos enviar ao pai dela alguma coisa que o faa perceber que a filha corre perigo srio - disse a italiana. - Algo, por exemplo, que o faa
se lembrar dos laos de... sangue. O garoto Getty foi resgatado quando a famlia recebeu a orelha dele.
         - Chega! No quero mais ouvir essa conversa! Estou encarregado da operao e s eu vou decidir o que deveremos fazer e quando!
         O silncio caiu pesado e um medo nauseante envolveu Sharon, pensando na ameaa de Olvia.
         Como eles a mutilariam? Cortariam um dedo? Uma orelha? O mero pensamento era bastante para fazer com que um suor frio cobrisse seu corpo. Mas conseguiu
reunir todas as foras para no deixar Olvia perceber o quanto estava aterrorizada.
         Sabia muito bem o que tinham feito ao neto de Paul Getty: lera nos jornais e se lembrava dos comentrios do pai sobre o assunto, embora fosse muito nova
na poca. Os seqestradores cortaram uma orelha do rapaz e a mandaram para a famlia. E no tinha sido o nico, caso de mutilao. Mas, pelo menos ele sara vivo.,
Se conseguisse escapar! Mas como? Era impossvel fugir. Mesmo assim, estava obcecada por essa idia.
         E, agora, havia a ameaa de Olvia para aumentar o medo que era seu companheiro desde os primeiros instantes do seqestro.
         O dia se arrastava. Sharon viu por duas vezes Olvia e Guido falando baixinho. Ser que os dois estavam fazendo planos para passarem sobre a autoridade
de Nico e talvez at o tirarem do comando? Notara uma mudana na italiana, uma certa relutncia em aceitar a palavra de Nico. Por mais absurdo que parecesse, ele
tinha se tornado a nica proteo de Sharon contra a maldade de Olvia e a luxria de Guido. Cada vez que Nico se afastava, ela entrava em pnico. No duvidava de
que Olvia cumpriria a ameaa de mutilao se tivesse uma chance. Afinal, o que Nico poderia fazer, depois do fato consumado? Evitava pensar na agonia que o pai
passaria se recebesse uma evidncia dessas.
         No jantar, no conseguiu tocar na comida, sentia-se entorpecida. Uma ou duas vezes, percebeu o olhar de Nico sobre ela, mas se recusou a encar-lo.
         Quando ele se levantou da mesa abruptamente, assustou. Era a primeira vez que Nico demonstrava perder a calma.
         - Piero, nossa hspede parece precisar de um pouco de ar. D uma volta com ela at a margem do rio.
         - Voc no vai? - perguntou Olvia, com malcia. - No me diga que ela j lhe deu o fora.
         "A atrao que Olvia sentia por Nico se transformou em pouco tempo em antipatia total", pensava Sharon, enquanto seguia Piero para Sharon levou um estar
perdendo a fora. Ou a outra estava escondendo seus sentimentos, fingindo desprezo?
         A noite j tinha cado e a temperatura estava agradvel. S de lembrar que ficaria trancada naquele quartinho abafado quando o passeio acabasse, dava a
Sharon uma aguda claustrofobia. Em qualquer outra circunstncia, o passeio entre as oliveiras, seguindo at o rio, seria uma delcia. Mas Piero s suas costas, pronto
para pular se ela fizesse um movimento suspeito, acabava com todo o prazer.
         Diante deles, o rio brilhava ao luar. Sharon caminhou pela margem durante algum tempo, parando ao ver Nico se aproximar pelo lado oposto. Obviamente, tambm
tinha sado para tomar um pouco de ar, mas, ao contrrio dela, era livre para fazer o que desejasse.
         - Piero, quero que voc d uma olhada no jipe. O motor est esquentando muito.
         - Vou dar uma olhada agora mesmo e amanh conserto.
         - timo, no quero correr o risco de ficar com o carro quebrado.
         Quando Piero desapareceu na escurido e os dois ficaram sozinhos, Sharon sentiu um estranho constrangimento. Atrs dela estava a casa da fazenda e seu quartinho;
 sua frente, o rio, e, mais adiante, a liberdade.
         De repente, a nsia de fugir foi mais forte do que a prudncia e ela comeou a correr, sem nenhum plano definido, somente um desesperado desejo de ser livre.
Correu com uma velocidade de que nunca se julgou capaz. O cativeiro tinha feito com que perdesse peso e isso agora era uma vantagem, pois estava mais leve. Entretanto,
Nico tinha o vigor que lhe faltava, e ela sentiu que acabaria por alcan-la.
         Mesmo assim, Sharon se recusava a parar, exigindo do corpo um esforo supremo, no se importando de chegar ao ponto de desmaiar. O nico pensamento em sua
mente torturada era a vontade de fugir, desaparecer dali, ser finalmente livre!


         CAPTULO VII

         Subitamente, ela estava caindo... caindo at se chocar com o cho num rudo surdo, sem poder respirar direito. Sentiu um enorme peso grudando-a ao solo.
Levantou a cabea, numa derrota amarga, e olhou para o rio que corria tranqilamente alguns metros  frente.
         - Sua idiota!
         Sharon no reagiu, quando Nico a virou de costas, deixando os  braos carem, impotentes, ao longo do corpo.
         - O que esperava, conseguir?
         - A liberdade! - conseguiu falar, o rosto angustiado iluminado palidamente pelo luar.
         Escutou Nico xingar, e ento, para seu espanto, ele comeou a beij-la feito um alucinado. Eram beijos diferentes dos outros; beijos apaixonados de um homem
que no agentava mais se controlar e que agora explodia...
         A lua se escondeu atrs de uma nuvem. A sbita escurido, o murmrio das guas do rio, os rudos dos animais noturnos e as carcias de Nico, despertavam
nela uma paixo selvagem, uma necessidade desesperada de experimentar todos os prazeres da vida, antes que fosse tarde demais.
         Inconscientemente, abandonou os cdigos de moral. Se ia mesmo morrer, queria conhecer o gosto da vida, saber como era ser possuda por um homem, mesmo que
esse homem fosse seu seqestrador. No podia mais lutar contra isso. Parecia haver uma estranha fatalidade no fato de estar ali, com Nico; como se esse sempre tivesse
sido seu destino.
         Levantou os braos para ele, entreabrindo os lbios. A maneira como Nico a tomou era de um homem apaixonado, to apaixonado que nada mais importava, seno
ter aquela mulher. Sharon sentia isso na urgncia de sua boca, na rigidez do corpo sobre o dela.
         Os botes de sua blusa foram arrancados, e uma Sharon que parecia ter renascido sentiu um prazer intenso quando Nico exps seu corpo ao luar e depois o
admirou em silncio.
         - Nessa luz, voc parece feita de mrmore - murmurou, fascinado. - Tem um corpo lindo. Podia posar para uma esttua de Diana. Mas sua carne  quente e tentadora.
         O toque da ponta de sua lngua no bico do seio foi ao mesmo tempo um prazer e um tormento. Instintivamente, Sharon ergueu os braos e puxou a cabea dele
contra o busto.
         O tremor de Nico e o gemido que escapou de seus lbios mostraram que no era s ela que se deixara dominar pela magia da noite.
         Quando Nico tirou sua saia e se despiu tambm, ela sentiu um prazer ainda maior. Respirou fundo, maravilhada com a perfeio daquele corpo msculo.
         - No olhe s para mim, quero que tambm me toque - ele murmurou, prendendo-a entre os braos.
         Logo, as barreiras da inexperincia e timidez foram vencidas e sua resposta foi total: comeou a beij-lo com sofreguido.
         - Por qu? - ele perguntou baixinho. - Por que agora, e no antes?
         Ela entendeu o que ele queria saber e sentiu que tinha que ser honesta.
         - Talvez, porque eu quia conhecer o amor antes de morrer.
         Ele ficou imvel e depois virou o rosto dela para que a lua o iluminasse. Observou-a com ateno, subitamente srio e preocupado.
         - Aches que escutei bem, mas quero que repita, s para eu ter certeza, de que no estou imaginando coisas.
         Sharon repetiu, hesitante. Quando terminou, ele ficou em silncio.
         Depois de algum tempo, perguntou:
         - Est me dizendo que ainda  virgem?
         - E se eu for? - A voz de Sharon estava trmula.
         Ele suspirou, virou de costas para ela e comeou a se vestir.
         - Agora escutei bem. E algo me diz que voc no est mentindo.  isso honestamente o que deseja? Uma relao puramente fsica com um homem que mal conhece?
E se , por que no fez antes? Por que agora?
         - Porque voc est aqui! - Sharon respondeu o mais calmamente possvel, aliviada porque na escurido ele no podia ver muito bem sua expresso. No era
isso que tinha vontade de dizer. Nico estava lidando com ela como se fosse uma criana. Desapontada, pegou as roupas e se vestiu.
         - Guido e Piero tambm estavam aqui o tempo todo. Est dizendo que qualquer um serviria?
         Ela teve vontade de dizer uma mentira, mas no conseguiu. Em vez de falar, sacudiu a cabea.
         - Sharon? - Colocou as mos nos ombros dela e olhou-a nos olhos. - Voc pode ser ingnua, mas no tanto que no perceba que o que vou dizer  verdade. Situaes
como essa provocam emoes que, de outra maneira, talvez nunca surgissem. Foi isso que aconteceu entre ns, est noite. - Ele se calou, com uma expresso amarga,
e um sentimento enorme de rejeio dominou Sharon, quando percebeu que Nico no tinha inteno de fazer amor com ela.
         - Se no me queria, por que comeou a me beijar? - perguntou, tentando ferozmente manter o amor-prprio e no conseguindo enfrentar o olhar dele.
         - Eu queria uma mulher que pensei que era experiente e mundana. No, uma menina ingnua, que queria me usar para completar sua educao sexual. Devia estar
grata. Assim, voc preserva o que claramente estava guardando para o casamento.
         - O que, provavelmente, nunca acontecer - Sharon disse, com amargura. - Em todo caso no era para isso que eu estava me guardando.
         - No?
         A zombaria evidente a enfureceu.
         - No!
         - Ento, para qu? Ou melhor, para quem?
         Por um momento, Sharon pensou em no responder, mas algo dentro dela rejeitou sua inclinao natural de esconder dos outros o que realmente sentia. Em voz
baixa, confessou:
         - Para algum que eu pudesse respeitar e confiar e tambm desejar fisicamente, e que sentisse o mesmo por mim; um envolvimento de corpo e alma...
         - Uma alma gmea - comentou Nico, secamente. - Mas, no fim das contas, a realidade destruiu seus ideais. Ou teria destrudo, se eu no impedisse. No me
interrompa! - continuou, quando percebeu que ela ia protestar. - No vai me dizer que seu corao virginal queria me eleger o perfeito amante, um cavaleiro de armadura.
         A zombaria dele a feriu e humilhou, e ela reagiu, amarga: - Quem no tem co caa...
         - Entre morrer virgem e me escolher como seu primeiro amante, voc escolheu a ltima hiptese. E acha que eu devia me sentir orgulhoso? Se acha mesmo, sinto
ter que desapont-la, e quero lhe dar uma palavra de aviso: na prxima vez que responder to apaixonadamente s carcias de um homem, mesmo que seja uma experincia
de sua parte, procure alimentar seu ego e do coitado e no seja to sincera.
         - Nico!
         Olvia surgiu das sombras, e Nico ajudou Sharon a se levantar. Sua pele se arrepiou com o contato da mo dele, mas ele parecia indiferente.
         - Ah, esto a! Pensamos que podia ter acontecido alguma coisa. Vocs demoraram tanto!
         - No aconteceu nada, Olvia - afirmou Nico, e aquelas palavras penetraram como punhais no corao de Sharon. A ele, no tinha acontecido nada, mas a ela...
No seria fcil suportar sua rejeio, principalmente porque vinha de um homem que ela havia jurado odiar.
         Confusa e desnorteada, Sharon comeou a percorrer o caminho de volta para a casa da fazenda. Com o vento fresco da noite batendo em seu corpo, o frentico
desejo de ainda h pouco parecia ter sido experimentado por outra pessoa, como um sonho vagamente lembrado. Parecia impossvel que tivesse realmente se comportado
daquela maneira, correspondendo to apaixonadamente. Entretanto, bem no fundo do corao, ainda havia uma dorzinha, um pensamento de que, se no tivesse dito as
palavras erradas, talvez...
         Sharon entrou na casa e subiu para o quarto, o olhar maldoso de Olvia a incomodando como se fosse uma agresso.
         - Quanto tempo ainda vamos ter que ficar aqui? - escutou Olvia perguntar a Nico, depois de tranc-la e voltar para baixo. - Em Roma, devem estar muito
impacientes. Nunca demoramos tanto numa misso.
         Sharon se esforou para ouvir a resposta.
         - E nunca estiveram to perto de serem apanhados como da ltima vez. Foi uma tolice o que fizeram, matando Jobn Hunter. E tambm nos fez perder o dinheiro
do resgate.
         - A polcia estava em cima de ns, no podamos correr o risco de deixar o homem vivo.

         Os dias se passavam numa insuportvel rotina. Depois do caf, Sharon trabalhava nos vinhedos, sempre sob o olhar atento de seus carcereiros. Nico ia quase
todos os dias at a cidade prxima; algumas vezes, Olvia ia com ele; outras vezes, um dos homens o acompanhava. E ela tentava se convencer de que a dor que sentia
sempre que o via com Olvia nada significava. Como poderia sentir alguma coisa por Nico, afinal? Ele a havia humilhado moral e fisicamente, traindo sua confiana.
         Naquele dia, nuvens escuras no horizonte ameaavam uma tempestade. Com o passar do tempo a leve brisa desapareceu e o ar ficou carregado. A eletricidade
parecia ter tambm influenciado o ambiente dentro da casa da fazenda.
         Todos estavam com os nervos  flor da pele, Olvia irritou-se com Guido e Piero na hora do almoo. Piero no reagiu, concentrando-se no macarro que comia,
mas Guido agarrou-a brutalmente pelo brao, sacudindo-a com violncia. A tenso entre os dois aumentava visivelmente, e a atmosfera carregada pela tempestade que
se aproximava fez com que, pela primeira vez, o ferimento de Sharon latejasse. Estava praticamente cicatrizado, mas ela suspeitava de que ficaria uma pequena cicatriz
bem embaixo do busto, para que sempre se lembrasse do que tinha acontecido. Como se precisasse de alguma coisa para se lembrar!
         Nico tinha ido  cidade, e, para fugir do clima de discusso, Sharon saiu para o ar livre. Piero foi atrs dela e comeou a limpar a arma, como num aviso
silencioso para que no tentasse fazer nenhuma tolice. "Como a mente humana se adapta rapidamente", ela pensou, desalentada. Agora, no se incomodava mais com aquelas
armas sempre apontadas para ela e com o fato de ser uma prisioneira.
         Por que seu pai no tinha entrado em contato com o bando? Ser que realmente estava encontrando dificuldade para reunir o dinheiro? Ou Olvia tinha razo
quando dizia que ele no se importava em ter a filha de volta? Sentiu vontade de chorar, mas se controlou. O pai a amava e acreditaria nisso at o fim.
         A falta de notcias de Richard Wykeham parecia estar afetando a todos, no somente a ela.
         - Ele est brincando conosco! - Olvia protestou, olhando sinistramente para Sharon. - E voc o est encorajando, Nico. A cada dia que passa, aumenta o
risco de sermos descobertos. Temos que sair daqui.
         - No! Se sairmos, vamos atrair a ateno sobre ns. Temos que ficar.
         - Mas no podemos ficar aqui para sempre. Precisamos fazer alguma coisa para o velho entender que a filha est correndo perigo de vida.
         Sharon estremeceu violentamente diante de mais uma ameaa de mutilao. Na primeira vez, sentira um terror imenso, e aquilo a impediu de tentar se libertar,
mas desde ento ningum mais tinha voltado ao assunto.
         - No! - Nico estava visivelmente zangado. Ser que apenas porque Olvia vivia discutindo suas ordens? - J disse que no acredito que sir Richard esteja
adiando por nenhum motivo especial. Um milho de libras  muito dinheiro, mesmo para os ricos; principalmente, quando deve ser levantado na surdina. Ele me pediu
um pouco mais de tempo e estou disposto a concordar.
         - Enquanto isso ns ficamos enfurnados aqui, a cada dia correndo o risco de sermos descobertos?
         - Voc est ficando histrica, Olvia. Se fizssemos o que est sugerindo, no tenho dvidas de que sir Richard no hesitaria em se comunicar com a polcia.
No estamos lidando com um idiota.
         - E Roma? O que eles acham de tudo isso? No podem estar contentes com voc, Nico.
         - Bem ao contrrio, cara. Eles so bem mais realistas do que voc. Esto mais do que contentes em deixar tudo em minhas mos... mas, se quiser discutir
com eles, tem o meu consentimento.
         Olvia e Guido trocaram olhares significativos, e Sharon comeou a desconfiar de que os dois tencionavam destituir Nico do comando. Parecia que Olvia estava
agora muito mais ligada a Guido.
         - De qualquer modo, vou ter que ir a Roma - disse Nico, pegando a todos de surpresa. - Enquanto eu estiver ausente, vocs no vo fazer nada que possa prejudicar
a misso. Quando eu voltar, discutiremos novamente o caso, se sir Richard ainda no tiver feito contato. Se algum de vocs desrespeitar minhas ordens, ter que se
ver comigo. Ser que fui claro?
         Era evidente que sim, e mais uma vez Sharon ficou impressionada com o controle que Nico mantinha sobre os outros trs. Teve um impulso de pedir a ele que
a levasse. No queria ser deixada ali. Mas desistiu. Sabia que ele nunca concordaria. Alm disso, ele no era to desprezvel como os outros? A nica diferena era
que Nico tinha mais educao e mais autocontrole.

         Meia hora depois, ele partiu. Sharon fez seu habitual trabalho nas vinhas, sempre sob o olhar vigilante de Piero, que a submeteu a uma conferncia sobre
os males da sociedade. Ela ignorou tudo, como tinha aprendido a fazer. A princpio, ela os escutara com curiosidade, esperando assim conseguir compreend-los melhor,
mas a cegueira com que lidavam com as falhas de sua organizao tornou impossvel para ela ao menos conversar sobre o assunto.
         Tinha perdido peso com a priso e a pele estava queimada, quase acobreada por causa do sol forte que pegava diariamente. Fazia um tempo enorme que no usava
pintura alguma. Seus cabelos que tinham sido cortados to cruelmente estavam agora mais compridos e formavam cachos que emolduravam delicadamente o rosto. Os olhos
verdes pareciam ainda maiores e mais claros, em contraste com a pele escura.
         - Est aqui para trabalhar, no para ficar sonhando!
         No tinha ouvido Olvia se aproximando e endireitou as costas doloridas quando a outra chegou mais perto.
         - Pode enganar Nico, mas a mim no engana - continuou a italiana, agressiva. - Mesmo que ele quisesse, no ousaria ajudar voc. A organizao no perdoa
traio e Nico sabe disso. No  to esperta como pensa, sua vagabunda! Ah, ele vai gozar o seu corpo, mas  s. Nunca conseguir domin-lo.  melhor comear a rezar
para que seu pai arranje logo esse dinheiro. E no pense que Nico se importa com voc. Ele a despreza e a todas da sua laia.
         - Voc est com cime - respondeu Sharon.
         Tinha dito aquilo impulsivamente, mas sabia que era verdade.
         Contra toda a lgica, Olvia estava com cime dela.
         -  mentira! Nico dorme com voc porque voc implora, e principalmente porque ele  muito macho... Mas voc para ele no passa disso: um corpo.
         Mais tarde, Sharon pensou no que Olvia havia dito e imaginou o que a outra faria, se soubesse a verdade: que Nico a rejeitara. Nico... por que precisava
pensar nele o tempo todo? Em vez disso, devia pensar numa maneira de fugir. E seu pai, como estaria? Ser que se arrependia de no ter procurado a polcia? Como
faria para conseguir o dinheiro? Sabia que ele no possua tal soma no banco e seria obrigado a vender alguns de seus bens. Talvez os quadros impressionistas que
colecionara com tanto amor durante anos; as antiGuidodes compradas pela me; at mesmo algumas aes da companhia. Certamente, nada disso poderia ser feito muito
depressa, para no levantar suspeitas.
         A tempestade que ameaava o dia todo caiu naquela noite, os troves e relmpagos se sucedendo com assustadora rapidez, Sharon foi se deitar com uma leve
dor de cabea, mas aliviada por escapar da atmosfera tensa da sala. Guido no parava de lhe dar olhares lascivos, e, sem Nico por perto, ela se sentia muito desprotegida.
         A madrugada chegou clara e calma, depois da tempestade, Sharon escutou Piero assobiando l embaixo. Quando Olvia subiu para destrancar a porta, no trouxe
o habitual balde de gua, Sharon perguntou o motivo e ela respondeu, venenosa:
         - O que h? Acha que Nico no vai querer voc, se no estiver perfumada? Nico  um macho e prefere uma fmea de verdade, em vez de uma gr-fininha mimada.
         Felizmente, Sharon no tinha que agentar isso o tempo todo, pois agora j lhe permitiam um pouco mais de liberdade.
         - Para onde ela poderia ir? - perguntou Olvia, com pouco-caso, quando Piero quis restringir seus passos. - E como, se as chaves do carro esto com voc?
Deixe que saia, e, se tentar fugir, atire nela.
         Sharon no cometeu o erro de subestimar a ameaa. O rio a atraa, embora no quisesse confessar a si mesma por qu. Ficou olhando a gua durante alguns
minutos e depois, num impulso sbito, tirou a blusa e o jeans j deformado pelo uso constante e entrou no rio, at a gua lhe bater pela cintura. Como antes, a sensao
deliciosa de se sentir limpa lhe fez bem  alma. Mas, dessa vez, ficou vigiando as margens e no demorou muito tempo no banho. No tinha toalha para se secar, mas
o sol logo secaria suas roupas de baixo. Dali podia ver Piero, na porta da casa. E aquela era a hora em que Guido costumava ir at a cidade buscar mantimentos.
         Quando Sharon voltou, o jipe estava, em frente da casa, mas no havia sinal de Guido. Pensando que ele estava cuidando das vinhas, ela entrou na sala escura,
em contraste com a claridade do ptio l fora.
         Urna mo agarrou sua garganta, no deixando que respirasse. Guido falou bem perto de seu ouvido, deixando-a nauseada com seu hlito, que cheirava a alho
misturado com vinho barato:
         - No reaja.
         Ele apalpou seu corpo e depois, na nsia de arrancar sua blusa, arrebentou os botes. Ao ver a luxria naqueles olhos, Sharon imediatamente entendeu que
Guido tinha estado algum tempo  sua espera., Todo o medo que sentira antes era nada, comparado ao de agora. Medo e repugnncia por aquela boca quente e molhada
que procurava  a dela.
         Sharon lutou como um animal acuado, as unhas arranhando o rosto dele, mas aquilo parecia excit-lo ainda mais. Sua blusa foi arrancada, a mo dele pousando
pesada sobre o seio ainda protegido pelo suti. Ele cheirava a suor azedo e tinha uma fora brutal.
         Sharon pensou que estava perdida, mas de repente a porta se abriu.
         - Guido, largue-a!
         Nico! Ela imediatamente se sentiu aliviada. Mas Guido no obedeceu.
         - Largue-a, j disse!
         - Estou farto de fazer o que voc manda - gritou Guido, atirando Sharon no cho com um safano. Depois, tirando a faca da cintura, avanou ameaadoramente
contra Nico.
         O medo que Sharon sentia por si mesma foi substitudo pelo medo que agora sentia por Nico. Ele estava desarmado, e ela sabia que os outros dois no o ajudariam.
O que estava acontecendo era mais do que a luta pela posse de seu corpo de mulher: era a disputa pelo poder. Tremeu convulsivamente, quando os dois se aproximaram
e a faca brilhou no ar, passando bem perto do corpo de Nico.
         Sharou fechou os olhos, o ferimento fazendo-a se lembrar dolorosamente de como aquela lmina podia ser perigosa. Ento, ouviu um grito de dor e ela abriu
os olhos, o corao batendo descompassado.
         Guido estava cado no cho, aos ps de Nico, a faca jogada um pouco mais longe. Nico respirava com dificuldade e um corte no rosto sangrava. Ele afastou
impaciente o sangue que pingava, antes de passar os dedos pelos cabelos e dizer com a voz perigosamente fria:
         - Piero, eu mandei voc vigiar Guido. E quanto a voc, canalha, avisei o que aconteceria, se...
         - Cuidado! - gritou Sharon, quando viu que Guido tinha alcanado a faca, mas Nico foi mais rpido. Com um pontap, desarmou-o e agarrou-o pela camisa.
         - Eu devia acabar com voc!
         - No foi culpa de Guido - disse Olvia, que acabava de chegar correndo. - Ela andou provocando, encorajando...
         Sharon queria gritar que era mentira, mas as palavras no saram. De repente, tudo comeou a escurecer em torno dela e mergulhou num rodamoinho escuro,
escapando daquele pesadelo em que sua vida se transformara.



         CAPTULO VIII

         Sharon estava deitada em sua cama estreita, no quarto. Estava escuro e ela podia ver a lua pela janela sem cortinas. Levantou-se, enquanto o que tinha acontecido
voltava  sua mente. Comeou a tremer, sentindo uma intensa nusea e dor na garganta. E no era s a garganta que doa; seus braos estavam cheios de manchas roxas
e a blusa em farrapos.
         Deus do cu! Estremeceu ao pensar que por pouco no tinha sido violentada. Se Nico no chegasse a tempo... Nico! As lgrimas comearam a brotar em seus
olhos. Encolheu-se na cama, o queixo apoiado nos joelhos. A batida leve na porta, que foi aberta em seguida, deixou-a terrivelmente tensa. Nico entrou, srio e preocupado.
         Ela virou o rosto, tremendo incontrolavelmente e fechando os olhos para que ele no visse sua angstia e seu medo. Nico trazia uma bacia com gua e um tubo
de pomada.
         - Sharon - disse ele, com imensa ternura, - est tudo bem agora. No vou machucar voc. - Chegou mais perto da cama. - S quero examinar o ferimento e ter
certeza de que no abriu outra vez. Vou passar uma pomada. No vai doer nada. Est vendo? - perguntou, enquanto passava com cuidado a pomada nos braos cheios de
manchas roxas. - Sharon...
         Ela no conseguia parar de tremer, e as lgrimas escapavam sem que pudesse controlar.
         - No encoste... em... mim - pediu, mas em voz to baixa que ele mal escutou. - No chegue perto de mim. Eu me sinto to suja... to suja... - Agora, se
balanava de um lado para o outro, o olhar perdido no vazio.
         Nico puxou-a para junto de si, mas ela continuou tensa, tremendo.
         - Sharon, est tudo bem. Ele no vai mais encostar um dedo em voc, prometo. Est tudo bem. Vamos, deixe que eu tire essa blusa, para voc se lavar. Eu
trouxe um pouco de gua. Vai se sentir melhor.
         Ele se levantou e foi at a porta, mas Sharon no dava sinal de ter escutado, os braos magros ainda em volta do corpo, enquanto repetia sem parar:.
         - .. .to suja... to suja...
         Quando Nico voltou, minutos depois, ela estava na mesma posio.
         Pacientemente, como se ela fosse uma criana, ele afastou os braos que apertavam os joelhos e, com cuidado, tirou a blusa rasgada. Embora recuasse um pouco,
Sharon no ofereceu resistncia. Quando ele lavou a pele arranhada, no tentou impedir, e aos poucos a tenso foi diminuindo. Nico percebeu e parou um instante,
observando seu rostinho triste..
         - Voc est bem, Sharon. No aconteceu nada. Ele no...
         - ... me violentou? - Seu corpo estremeceu incontrolavelmente outra vez. - Mas ele ia conseguir, eu no podia fazer nada para impedir. Eu podia ter morrido,
e aquilo seria o nico amor que conheceria...
         Nico tentou acalm-la, abraando-a como se abraasse uma criana assustada, repetindo mansamente que tudo estava terminado, e s deixando-a quando percebeu
que estava mais calma.
         - Trouxe gua para voc. - Mostrou a bacia no cho. - Vou sair para que possa se lavar e volto em meia hora com alguma coisa para voc comer.
         Depois que ele saiu, Sharon ficou de p e comeou a se lavar como se fosse uma sonmbula. Os restos rasgados da blusa provocaram nela uma nova onda de repulsa,
mas se controlou e vestiu a outra blusa.
         Estava acabando de aboto-la, quando Nico voltou com o jantar.
         No tinha nenhum apetite, mas ele insistiu:
         - No vou sair daqui at que coma tudo. Olvia me disse que voc no comeu nada o dia todo.
         - Que importncia tem isso? - No conseguiu esconder o desespero na voz.
         - Vamos... - Colocou uma colherada entre seus lbios e Sharon engoliu obedientemente, como uma criana. Mas, depois do primeiro bocado, percebeu como estava
faminta. Nico tambm tinha trazido uma caneca com caf, mas ela estranhou o gosto.
         - Conhaque - ele explicou. - Vai ajudar voc a dormir melhor.
         Dormir! Como conseguiria dormir, se, cada vez que fechava os olhos, via a cara sinistra de Guido e sentia as mos grosseiras pegando em seu corpo?
         Colocou a caneca de lado.
         - Nico...
         - Eu sei, mas isso passar.
         - Como pode saber? - perguntou, descontrolada. -  porque no aconteceu com voc. Voc no teve que suportar.. Foi repugnante, odioso! Eu me sinto to...
to suja!
         - Sharon... - murmurou, abraando-a com cuidado e fazendo com que o encarasse. - O que aconteceu no foi culpa sua. Se houve um culpado, fui eu. Sabia que
Guido estava louco por voc. Disse a mim mesmo que voc o estava provocando, mas sabia que no era verdade. Voc no teve nenhuma culpa, precisa acreditar nisso.
         - Como posso, quando sei que, se ele tivesse me violentado, ningum acreditaria em mim? Cada vez que algum tocar em mim, vai parecer que  ele! No posso...
- estremeceu novamente, no vendo a mgoa horrvel nos olhos de Nico, nem o ricto amargo em sua boca.
         - Sharon, eu...
         - No me deixe aqui sozinha essa noite, Nico - implorou, quase histrica. - Por favor, no me deixe! No vou agentar!
         - Cama, calma... - ele murmurou, tornando a abra-la. - Est tudo bem agora... tudo bem. Eu vou ficar. Deite e tente dormir. Prometo que vou ficar.
         Ela afinal conseguiu dormir, mas s depois que Nico se deitou a seu lado na cama estreita, a calor do corpo aquecendo-a e assim no permitindo que a lembrana
de Guido a assombrasse.
         No havia bastante espao para as dois. Por isso, no meio da noite ela acordou com a cabea aninhada no peito de Nico e o brao dele em volta da cintura.
         - Est acordado?
         - Sim. Est com medo?
         - No, enquanto voc estiver aqui. Guido...
         - Esquea Guido. - A velha impacincia estava de volta em sua voz, e, quando ele subitamente retirou as braas que a protegiam, Sharon sentiu-se novamente
rejeitada, e recomeou a tremer.
         Nico segurou a rosto dela.
         - No, Sharon, no faa isso...
         Ela chorava sem conseguir parar. Chorava silenciosamente, as lgrimas escorrendo incessantemente pela rosto plido. Logo a camisa dele estava ensopada.
         Nico deixou-a chorar, e, encostada no peito forte, Sharon sentiu-se protegida. No teve nenhum medo daquele abrao, nenhum pnico, quando ele acompanhou
o canto dos seus lbios com o polegar e depois, suavemente, beijou-a na boca. Aos poucos, seus sentidos comearam a responder. Por um instante, a imagem de Guido
veio se interpor entre eles, e ficou, tensa. Nico continuou a. acariciar suavemente suas costas, baixando a mo muito devagar, mas agora ela no sentia mais nada.
         - Sharon? - Havia arrependimento e compreenso em sua voz, e ele a soltou.
         - No. - De repente, ela despertou para a realidade e, instintivamente, protestou. - No me deixe! - Abraou-a aflita. - Faa amar comigo, agora. - Como
ele no respondeu, insistiu: - No entende? Tudo que tenho para me lembrar  Guido; tudo que sinto, tudo que escuto... - Estava comeando a ficar agitada outra vez,
os olhos brilhando na escurido, os lbios tremendo. - Por favor, no quero ter s aquilo para...
         - Sharon, meu Deus! No sabe o que est me pedindo!
         Ela no podia agentar mais uma vez o desprezo dele.
         - Sou assim to indesejvel? To sem atrao que voc nem me quer? - Na obscuridade, seus olhos imploravam. - Ou no suporta mais me tocar depois que Guido...
         Ouviu uma praga abafada, e logo estava nos braos dele, que a puxava para junto do corpo ardente.
         - Nunca mais diga isso - sussurrou em seu ouvido; - Nenhum homem que se preze daria importncia a uma coisa dessas. E Guido no violentou voc.  ainda
virgem e  por isso...
         - Porque sou virgem! E vou ter que morrer virgem? - perguntou, revoltada. - Minha virgindade me torna assim pouco atraente, menos desejvel? Quero voc,
Nico. Preciso de voc.
         - No, voc no precisa de mim - ele respondeu, inflexvel. - Precisa de algum para apagar de sua memria a imagem de Guido. Eu ou qualquer outro serviria,
e se eu tivesse um mnimo de juzo... - Olhou para o rostinho inseguro, os olhos febris e atormentados. - No imagina quanto desejo voc, Sharon. E est tornando
impossvel para mim me lembrar de que no tenho o direito de fazer amor com voc.
         Sharon no respondeu. Sabia instintivamente que precisava do blsamo do amor de Nico para destruir a impresso que Guido deixara em seu corpo e em sua mente.
Sabia que Nico no era o tipo de homem que abusaria de uma mulher, no importava quais suas idias polticas, quais suas crenas.
         Quando a boca dele procurou a sua, ela respondeu com tal impetuosidade que o desarmou, e aquele beijo, que comeara suavemente, transformou-se numa nsia
mtua de posse. Sharon sentia a pele dele  ardendo de desejo, quando deslizou as mos por dentro da camisa e no teve dvidas de que realmente a desejava. Num gesto
puramente instintivo, moldou seu corpo ao dele, vibrando ao sentir que seus msculos se retesavam. Sem conseguir mais esconder o fogo que o consumia, Nico olhou-a
na escurido quase total do quarto, fracamente iluminado pelo luar.
         - Sharon... Sharon - murmurava, como se ainda lutasse contra o desejo, sem saber quanto tempo mais agentaria.
         Mas ela queria que a posse fosse total, queria que no a tratasse mais como uma tola inexperiente; queria se perder na rendio doce e amarga, queria se
esquecer dos porqus daquilo estar acontecendo entre eles.
         - Sharon...
         Dessa vez, havia desejo na maneira como disse seu nome. Sua boca se entreabriu sob a presso dos lbios dele. O beijo foi devastador, deixando-a rendida
e totalmente dcil.
         Agora, estava deitada contra ele, muito junto, enquanto Nico acariciava lentamente suas costas, provocando nela pequenas exploses de prazer. As mos dela
tambm exploravam os ombros fortes, por baixo da camisa, e, depois, a aspereza dos plos do peito. Ouviu-o prender a respirao com um pequeno gemido de prazer.
Ento, tambm tinha o poder de excit-lo? Os beijos apaixonados o estavam deixando cada vez mais descontrolado. Era o que ela queria. Sentia-se como uma criana
que tivesse guardado seu presente de Natal para abrir no dia certo e, de repente, temesse que seu presente lhe fosse roubado.
         - Sharon, tem idia do que est fazendo comigo? - gemeu Nico em seu ouvido, e aquela queixa causou uma onda de alegria em Sharon. Ele tirou a blusa dela,
depois o suti, e ela ansiava para sentir suas mos na pele nua; sentir aqueles dedos longos e fortes acalmando a quase insuportvel palpitao dos seios entumescidos
de desejo.
         Depois de a ter despido, Nico beijou-a suavemente, e admirou seu corpo.
         - Meu Deus, devo estar louco - murmurou, rouco. - Mas preciso de voc. Voc entrou no meu sangue, Sharon; parece uma febre que tomou conta de mim. No imagina
quantas noites me deitei sozinho, querendo que voc estivesse assim em meus braos, toda nua, me desejando!
         Aquelas palavras foram mgicas, afastando qualquer dvida que ela ainda alimentasse quanto ao que estava fazendo.
         - Agora tire a minha roupa, Sharon... - pediu ele, enquanto continuava a beij-la, a trilha febril seguindo pelo pescoo, depois mordendo de leve o lbulo
da orelha.
         Sharon acariciou-o, as mos descendo at o cinto do jeans e parando.
         Sentiu que ele ficava subitamente tenso.
         - Pelo amor de Deus, no pare agora!
         Logo o zper cedeu e o ventre chato dele ficou exposto aos olhos dela, os cabelos negros emprestando mais sensualidade quele corpo msculo, que ela agora
tocava sem timidez. A respirao de Nico estava cada vez mais pesada, e as carcias que ele lhe fazia, cada vez mais urgente. Teve um ligeiro sobressalto ao sentir
que agora no havia mais possibilidade de impedir que a possuisse.
         - O que voc est fazendo comigo? - gemeu Nico. - Quer me deixar louco? No entende que quero que toque meu corpo? No sabe...? Mas  claro que no - exclamou,
rindo. - Como poderia? Voc  virgem. No posso fazer isto, Sharon. No posso...
         Era a hora em que ela poderia recuar, mas tambm sabia, sem sombra de dvida, que no ia desistir.
         - Por favor, Nico... - Seus lbios tocaram o peito forte, descendo aos poucos at a cintura. Ento, convulsamente, ele a empurrou.
         - O que eu fiz de errado? - perguntou ela. - No gosta que eu faa isso?
         - No  to ingnua assim, Sharon - disse ele, aborrecido, o rosto moreno tenso e preocupado.
         No podia afast-la mais, porque a cama era muito estreita, e, apesar de ainda estar de jeans, Sharon sentia como o havia excitado. Esperou, agoniada, a
deciso dele e de repente teve vontade de rir. Ela  que deveria estar indecisa, que deveria estar se retraindo...
         - O que aconteceu? - perguntou Nico, percebendo que Sharon sorria.
         - Nunca pensei que fosse to difcil perder a virgindade.  por isso que no me quer? S por isso?
         - No seja ridcula! - exclamou, puxando-a para ele com fora, para que no tivesse mais dvidas de como a desejava. -  lgico que quero,voc. Mas a quero
como uma mulher. No sei se vou conseguir ter bastante calma para deflorar uma virgem! Ser que respondi sua pergunta? E, agora, no me pea para explicar melhor,
porque vou lhe dar uma aula prtica!
         Trmula, provocando nele uma reao que ela sabia que no tinha retorno, os braos em torno de seu pescoo, Sharon sussurrou:
         - Sim, por favor, Nico....
         Ele a fez deitar-se de costas, e ela sentiu subitamente o ar frio da noite, quando Nico s levantou. Pensou por um instante que ia deix-la e o medo da rejeio
a apunhalou. Mas viu, na luz fraca que entrava pela janela, que ele estava apenas tirando o jeans. Estava de costas para ela, e Sharon prendeu o flego ao se lembrar
de como o tinha visto no rio. Sem nenhuma vergonha, admirou a nudez daquele corpo harmonioso e forte.
         Ele se virou para ela, mas no se deitou logo. Abaixou-se ao lado da cama e comeou a passar as mos pelo corpo de Sharon, que docilmente se oferecia.
         - No v me culpar, se no for como sempre sonhou. - ele a preveniu, com sinceridade. - As primeiras vezes nem sempre so as melhores.
         Mas no seria sua "primeira vez"; seria tambm sua "ltima vez", pensou ela, com profunda mgoa. Depois, no houve mais tempo para pensar, porque Nico comeou
a beij-la toda. Logo estava trmula, oferecendo a boca para que ele sentisse a umidade e o calor, zonza, tal o desejo que queimava todo o seu corpo. O sangue latejava
nas tmporas, e sentia que ele a havia preparado para a posse final.
         - Sharon!
         Os lbios se abriam para sentirem o calor dos seios dela, e ao mesmo tempo Nico separou suas coxas, deslizando entre elas.
         De repente, ela teve um comeo de pnico. Agora, Nico no tentava mais satisfaz-la. A boca que cobria a dela era exigente e as mos, que h pouco acariciavam
seus seios, desceram at os quadris para ajeit-la contra o corpo.
         Sharon sentiu uma dor aguda e torturante. Instintivamente, se esquivou, mas as mos fortes de Nico se recusaram a libertar seus quadris. Com um beijo feroz
ele abafou o gemido de dor de Sharon, seu desejo por ela mais forte do que nunca.
         Tudo j tinha terminado, deixando-a dolorida e agitada, trmula e decepcionada, sem querer admitir que a experincia ficara bem aqum do que sonhara...
         Infelizmente, Nico percebeu.
         - No foi bem a coisa maravilhosa que sempre sonhou, no ? - perguntou, seco. - Eu tentei avisar. Mas no faz mal - disse, um pouco tenso, - na prxima
vez vai ser diferente.
         Que prxima vez?, ela teve vontade de perguntar, mas estava cansada demais, deprimida demais, e vencida. Seus olhos comearam a se fechar e adormeceu, nua,
nos braos de Nico.

         Acordou durante a noite, escapando das garras de um pesadelo, a voz de Nico alcanando-a na escurido, obrigando-a a voltar  realidade.
         - Est tudo bem.  s um pesadelo. Guido no est aqui. Ou ser que tomei o lugar dele?.
         Ela fingiu que no tinha entendido. Sentia o corpo curiosamente leve, e corou, ao se lembrar como h pouco havia implorado a ele para  fazerem amor. Nico
estava certo: a experincia no tinha sido o que esperava.
         - Voc me avisou - reconheceu.
         - Mesmo assim, voc pensava que ia subir ao cu, no ? - As palavras eram bem-humoradas, mas havia tambm uma ponta de indignao. - Bem, se faz voc se
senti melhor, ouvi dizer que isso  possvel, quando tudo acontece no ambiente certo e com o homem certo. De qualquer maneira, nunca mais ser assim to ruim, a
no ser que voc cometa o erro de escolher um amante inexperiente ou muito insensvel.
         - Como poderei? Olvia nunca me deixar sair daqui com vida. Voc bem sabe.
         - E foi por isso que quis tanto que eu fizesse amor com voc?
         - No s por isso - respondeu, sentindo que devia ser honesta.- Foi por uma poro de coisas. Guido... eu no agentava nem me lembrar do que tinha sentido
quando ele me tocou, e...
         - Continue... - a voz dele estava agora com um toque metlico, e ela sabia que deveria continuar.
         - E eu achei que voc devia ser diferente. Nunca pensei que...
         - Que eu fosse apenas um homem? - perguntou, com um sorriso contrafeito. - Que eu s suportasse a provocao at um determinado ponto e que depois no tivesse
mais foras para recuar? Talvez eu devesse fazer alguma coisa para voltar ao pedestal, hein?
         Por um momento, Sharon ficou confusa. Mas, quando as mos dele comearam a deslizar por seu corpo, fazendo-a estremecer, ela entendeu e tentou manter-se
fria. Mas Nico no ia permitir. Ela no tinha defesa contra o poder dele de provocar seu desejo. O corpo parecia no se lembrar mais da dor violenta de h pouco,
e respondia s carcias. Os bicos dos seios enrijeceram ao contato dos lbios quentes e insistentes, e ela no agentou mais: febrilmente, os dedos se enrolando
nos cabelos pretos.
         - Nico... - sussurrou, enquanto ele beijava apaixonadamente seus seios palpitantes, aquecendo-os com a boca mida, com a lngua, deixando-a quase louca
de prazer.
         Dessa vez, sem a urgncia da primeira vez, suas mos e sua boca acariciavam o corpo inteiro de Sharon, deixando-a trmula, provocando uma frentica resposta.
Sem nenhuma inibio, deixou que ele a guiasse e possusse. No sentiu dor, mas prazer e lgrimas de emoo banharam seu rosto, molhando a pele de Nico.
         Quando afinal conseguiu falar, deu um tmido beijo no pescoo dele. - Obrigada...
         No podia ver o rosto de Nico, mas percebeu que estava tenso, ao responder:
         -  mais comum o homem agradecer. Principalmente, depois de uma experincia dessas...
         Sharon no entendeu bem por que ele tinha dito aquilo e no teve coragem de pedir que explicasse. De manh perguntaria, prometeu a si mesma, fechando os
olhos e adormecendo imediatamente.

         Sharon abriu os olhos. Alguma coisa estava diferente. Franziu a testa, tentando se lembrar, e de repente tudo lhe veio  mente. Ainda estava nua, mas sozinha
na cama. Nico tinha posto um cobertor para proteg-la do frio.
         Talvez devesse se sentir envergonhada, ou, pelo menos, arrependida. Mas no sentia nada disso. Ao contrrio, experimentava uma enorme sensao de felicidade.
Espreguiou-se indolentemente, consciente de sua condio de mulher, pensando em Nico. Nico! Ele a ensinara a amar; tudo o que sonhava num amante, havia encontrado
nele.
         Mas onde estaria?
         Escutou um barulho estranho e correu para a janela. Um helicptero sobrevoava a casa. A esperana a que renunciara h tanto tempo voltou a nascer dentro
dela. Ser que estavam  sua procura? Certamente, um helicptero naquela regio remota queria dizer alguma coisa?
         Tensa, comeou a se vestir. Escutava a movimentao l embaixo. Nico devia estar l tambm. Devia ter visto o helicptero, mas seus sentimentos seriam bem
diferentes dos dela. Pela primeira vez, enfrentou a terrvel verdade que estavam em campos opostos: sua liberdade significava o fracasso dele. E Olvia tinha deixado
bem claro o que acontecia aos que falhavam. Sentiu um medo horrvel, mas logo se dominou. No sentia nada por Nico como pessoa, absolutamente nada. Cus, se no
fosse sua situao, nunca permitiria que ele a beijasse, quanto mais...
         A porta se abriu e ele entrou, srio e grave.
         - timo, voc j est vestida - disse, impessoal. - Estamos de partida.
         - Por causa do helicptero?
         - Ento, voc tambm viu? Sim. Olvia acabou de me lembrar que ficamos aqui por insistncia minha. E, esta manh, ela no est se sentindo muito carinhosa
com voc - acrescentou secamente, ao ver que ela corava por causa da aluso  noite anterior. - Ento, voltou a ser a altiva srta. Wykeham, agora que percebeu que
no foi completamente esquecida pelo mundo? Ontem  noite, foi s uma aberrao, algo que dever ser esquecido e varrido para debaixo do tapete, no  assim - deu
um sorriso amargo. - Pois que seja.
         Sharon sentiu algo parecido com remorso, uma sensao de ter sido infiel a ele de alguma, forma, o que era completamente ridculo nas circunstncias. Mas,
quando seu brao roou no dele ao passar pela porta, a emoo da vspera voltou. Por um momento, teve vontade de abra-lo e implorar para que fugisse enquanto ainda
havia tempo. Levantou os olhos para ele, as lgrimas atrapalhando a viso, um n na garganta, sabendo que sua salvao representava a derrota de Nico. Mas a expresso
dura dos olhos dele a impediu de expressar o que sentia. Desceu, ento, encontrando Olvia com uma cara de fria e Guido com um ar ameaador.
         O plano era partirem logo depois de comerem alguma coisa. Sharon entendeu, pelo que diziam, que havia mais uma casa segura, que tambm tinha sido preparada
quando a seqestraram, e era para l que pretendiam lev-la.
         - Bem que eu avisei que estvamos aqui tempo demais - Olvia reclamou. - Eu disse que o pai dela estava brincando conosco. Mas no, voc achava que sabia
mais do que todo mundo. Ou ser que queria mais tempo para dormir com ela? Espero que tenha se divertido, porque, quando Roma souber...
         - Roma no vai saber de nada, at eu dizer - Nico respondeu, asperamente. - Piero, v at l fora ajudar Guido com o Land Rover. Parece que no est querendo
pegar.
         Guido saiu, e ainda por algum tempo o rudo do motor continuou.
         Finalmente, Piero apareceu, preocupado e zangado.
         - No pega. No sei o que h de errado como motor. Temos bastante gasolina, mas o carro morre, logo depois de pegar.
         - Ento tente o outro - ordenou Nico, um tanto irritado.
         Por mais estranho que pudesse parecer, Sharon teve uma vaga impresso de que ele no estava sinceramente preocupado se iam ou no sair dali.
         - O outro tambm - disse Piero. De repente, franziu a testa e foi at o armrio, de onde tirou a lata de acar. - Olvia, quanto tinha aqui dentro, ontem
 noite?
         Intrigada, Sharon viu a italiana arregalar os olhos depois de olhar dentro da lata.
         - Sua amiguinha ps acar na gasolina! - gritou Piero. - Por isso que a droga do carro no pega!
         - Quer dizer que estamos encurralados aqui? - gritou Olvia. - Quando eles voltarem, seremos apanhados feito ratos numa ratoeira.
         - Se eles voltarem, - lembrou Nico. - No temos certeza...
         - Ah, sim, no temos certeza, mas podemos tirar algumas concluses.  lgico que o helicptero era da polcia, e eles no vo voltar desarmados. Mas ainda
temos a garota. O papaizinho no vai querer que ela volte com o corpo furado de balas. E  o que vamos fazer, a menos que ele nos passe o dinheiro e nos d a garantia
de podermos sair do pas.
         "Ratos acuados se tornam perigosos", pensou Sharon, assustada. Nem Piero nem Nico tinham discordado de Olvia, e ele no duvidava nem por um minuto de que
a outra faria exatamente o que ameaava, se houvesse necessidade. Mas estavam enganados quanto ao acar: no tinha tocado em nada!
         - Tranque a garota l em cima, por enquanto - disse Nico a Olvia. Ele se moveu e, pela primeira vez, Sharon percebeu que estava armado. No era uma arma
igual  dos outros, mas um revlver de cano curto. Sentiu o suor gelado escorrendo pelo corpo. Deus do cu, se aquilo era ser salva, preferia continuar prisioneira!
         - No. Ela fica aqui embaixo, onde  mais fcil ficar de olho nela - disse Olvia. - Assim, eles tero mais cuidado quando atirarem. Quanto tempo calcula
que vo demorar para chegar?
         Olvia estava amedrontada, at mesmo Sharon podia ver. E tambm percebia como todos os trs, inclusive Guido, agora se apoiavam em Nico, pedindo instrues.
         - Depende do lugar onde esto reunidos. Talvez, umas duas horas. Isso, se descobriram mesmo que estamos aqui. - Olhou para o relgio. - Acho que temos que
comear a nos preparar, agora. Olvia leve Sharon com voc e traga para dentro todos os mantimentos que puder. No sabemos quanto tempo vamos ter que ficar aqui
dentro. Guido e Piero, tragam a munio.
         - No vai avisar Roma? - perguntou a mulher.
         - De que adianta? Eles nunca poderiam mandar reforos a tempo. No, estamos nessa por nossa conta.
         Era estranho, mas Sharon tinha a impresso de que Nico estava adorando tudo aquilo, enquanto os outros trs pareciam completamente descontrolados. Eram
todos uns fanfarres percebeu de repente. Tudo estava maravilhoso, enquanto no havia problema; mas era s a situao engrossar e se sentirem ameaados, para que
se acovardassem.
         Nico saiu para fazer o reconhecimento da regio e ficou fora durante meia hora. Exatamente uma hora e meia depois, o helicptero voltou, fazendo crculos
sobre a casa, antes de aterrissar do outro lado do rio, fora de suas vistas.
         - Droga! Eles esto fora de alcance! - Piero praguejou, da janela, de onde montava guarda. - O que acha que pretendem fazer? Invadir ou cercar?
         - Isso depende - respondeu Nico, que mostrava um sangue-frio impressionante.
         - Do qu? - perguntou Olvia, com a voz estridente e insegura.
         - Se forem italianos ou se sir Richard foi capaz de convencer o governo ingls e que cabia a ele resgatar uma cidad inglesa, com suas prprias tropas.
         Olvia ficou lvida.
         - Os S.A.S.? Mas as autoridades italianas nunca permitiriam...
         - Depois do banho de sangue de Moreau? Pois acho que os italianos agradeceriam a qualquer um que tomasse das mos deles essa responsabilidade. Mas, afinal
de contas, esse  um dos objetivos da nossa organizao, no ? Desacreditar o governo, criar uma anarquia total.
         Sharon estava intrigada. Ser que Nico no percebia. que, com aquela conversa, aumentava ainda mais o medo dos companheiros, em vez de encoraj-los? Era
como se soubesse como ficariam aterrorizados ao perceberem que teriam que enfrentar os S.A.S. e fizesse de propsito. Mas certamente ela estava imaginando coisas...
         - Nico, olhe! Ali, no meio das oliveiras.
         As palavras tensas de Guido afastaram do pensamento de Sharon as dvidas sobre o comportamento de Nico. Como os outros, ela se concentrou totalmente nas
figuras que se moviam entre as rvores. "O que faro?", pensou, com a boca seca. O mtodo italiano era invadir o prdio, com todos l dentro, mas os ingleses costumavam
antes tentar negociar.
         Mais tarde, foi provado que eram mesmo os ingleses. Um homem vestindo um uniforme de combate aproximou-se da casa, carregando um megafone e ladeado por
outros dois, armados com metralhadoras. Falou em italiano, pedindo a libertao de Sharon. Guido respondeu com tiros, e Sharon viu que os homens se deitavam no cho.
No momento seguinte, Nico a obrigava a tambm se deitar.
         - Fique abaixada - ordenou, e uma rajada de metralhadora cortou a sala.
         Sharon nunca conseguiu se lembrar claramente das horas seguintes. Estava consciente do medo, do calor quase insuportvel e da tenso dentro da sala. Rajadas
espordicas de metralhadora os lembravam, de tempos em tempos, que nunca escapariam com vida, depois de se recusarem a deix-la sair.
         Sharon no saberia dizer quanto tempo aquilo durou. Sentia o estmago doer ao pensar em como a liberdade estava prxima e, ao mesmo tempo, to longe. A
morte tambm estava perto, na arma que Olvia segurava, na faca de Guido, e sabia que nenhum deles hesitaria nem por um momento.
         Nico estava deitado no cho a seu lado. Quando ela tentou se afastar, arrastando-se at a escada sem que ningum a visse, os dedos de ao dele seguraram
seu pulso.
         - Nunca nos apanharo vivos! - gritou Olvia, depois de nova tentativa para que se rendessem. - Nem tero a,moa de volta. Ns a mataremos!
         Depois disso, pareceu haver uma calmaria l fora. Guido subiu para verificar se havia algum movimento na parte de trs da casa, mas, nem bem tinha subido,
uma nova rajada atraiu a ateno dos outros.
         Sharon estava com o rosto voltado para a escada, deitada de bruos, tensa e assustada demais para se mover, com medo de que uma bala perdida a atingisse.
Assim, foi a primeira a ver os quatro vultos surgindo l de cima, as armas prontas para serem usadas.
         Nunca saberia dizer por que tinha feito isso, mas puxou a manga de Nico, instintivamente. Ele virou a cabea, e, no mesmo instante, Olvia deu um grito:
         - Nico, a garota! Mate-a agora! - A italiana apontou a arma para ela, mas Nico se levantou e puxou Sharon para junto dele. Nesse instante, a porta foi escancarada.
         - A porta. - Ele disse em seu ouvido. - Saia correndo, depressa! - Ela obedeceu, mas percebeu tarde demais o perigo nos olhos de Olvia. Nico deu um salto
e ps o corpo entre ela e a arma. Depois,  uma exploso sacudiu tudo e homens de uniforme de campanha a seguraram, quando comeou a cair, murmurando o nome de Nico.
         Ainda o chamava, quando foi envolvida pelo abrao comovido do pai, cujo rosto preocupado a comoveu.
         - Minha pobre filhinha! - murmurou, aflito. Sharon percebeu que ele tambm estava uniformizado, o que era muito estranho. Depois, outro homem, obviamente
um oficial, sugeriu que deixassem os outros terminarem o servio que tinham vindo fazer e indicou um jipe.
         Enquanto o pai a ajudava a subir, Sharon olhou por cima do ombro. Dentro da casa ecoavam tiros, e uma fumaa densa escondia o que estava acontecendo.
         - A ordem  apanhar todos vivos - disse-lhe o pai, no parecendo muito satisfeito com isso. - Felizmente, eles sero julgados na Itlia, o que significa
que recebero sentenas bem mais severas: pelo menos, priso perptua.
         Priso perptua! Sharon pensou em Nico preso numa cela e sentiu uma profunda dor. Ele havia salvo sua vida, isso devia significar alguma coisa. Virou-se
para o pai para lhe dizer, mas ele no a deixou falar, aconchegando-a nos braos.
         - Minha pobre queridinha! No vejo a hora de lev-la para casa. Vamos fazer depois uma viagem juntos. Voc ter lindas frias e esquecer tudo!
         Sharon concordou, embora soubesse que no seria to fcil. Mas estava livre. agora e tinha que se esforar para esquecer... esquecer tudo!


         CAPTULO IX

         Naturalmente, quando a notcia se tornou pblica, causou um alvoroo na imprensa. Colunistas que sempre tinham considerado Sharon um simples tpico para
mexericos agora a cercavam para que desse entrevistas, at que se tornou praticamente impossvel para ela sair de casa.
         Seu novo relacionamento com o pai era uma bno e o carinho que lhe dispensava a emocionava. Logo que a presso dos negcios diminusse, planejava lev-la
para uma grande viagem. A pedido da prpria Sharon, no tinham ainda conversado sobre o drama pelo qual ela passara. O pai respeitou sua vontade, mas avisou que
no poderia viver como se tudo aquilo no tivesse acontecido.
         Todos os dias, ela procurava nos jornais alguma notcia sobre os seqestradores. O papel dos S.A.S. em seu resgate no era muito bem explicado: ao que parecia,
a nica razo de terem se envolvido era o fato de sir Richard estar se preparando para produzir uma arma tecnicamente muito sofisticada e temerem que os projetos
cassem nas mos dos terroristas.
         Mas, por mais que procurasse nos jornais, no havia notcias sobre a invaso da casa da fazenda ou suas conseqncias. Sharon dizia a si mesma que era natural
sentir curiosidade sobre o destino de seus raptores; no entanto, apenas um ocupava seus pensamentos: Nico. Ele tinha escapado, ou estava prisioneiro? Devia sentir
prazer em sua captura, sabendo que seria vingada, mas tudo que sentia era uma dor surda e sofrida.

         Um ms depois de sua libertao, o pai levou-a para uma viagem pelo Mediterrneo, onde deviam passar quinze dias de sonho. Mas Sharon no se sentia feliz.
Continuava tensa, os nervos  flor da pele, estremecendo por qualquer coisa, sem pacincia para apreciar uma conversa tranqila e desinteressada da companhia dos
outros jovens do hotel.
         - Quando voltarmos, vou me dedicar mais ao trabalho - disse ela, certa manh. - O que fizemos at agora  muito pouco.
         - Com a condio de no gastar todos os nossos lucros com os programas sociais - foi a resposta bem-humorada do pai. Ele a tratava agora como se ela fosse
um bibel e pudesse se quebrar em mil pedaos.
         Por insistncia da moa, voltaram para Londres. Era um longo vo, e ela acordou quando o piloto avisou que teriam que fazer um pouso de emergncia por causa
de um defeito nos motores.
         - Um pequeno defeito, nada srio - disse ele, para acalmar os passageiros.
         - Melhor prevenir do que remediar - comentou a aeromoa. - Temos sempre um avio de reserva, portanto, no haver uma grande demora. - Deu um olhar significativo
para o pai de Sharon, que no pde deixar de pensar que ele era ainda um homem muito atraente. Ser que nunca pensara em se casar novamente e ter outros filhos?
         Sentiu uma dor profunda ao pensar que o conhecia to pouco. No sabia quais seus sonhos, suas esperanas; e, pior ainda, nunca havia se interessado em saber,
considerando-o apenas seu distante provedor. De agora em diante, tudo isso ia mudar. Segurou a mo dele enquanto o avio descia. escutando-o conversar com a aeromoa.
         - Onde vamos descer?
         - Em Roma. Mas no haver tempo para dar uma volta, se  isso que est pensando.
         Roma! Sentiu que o pai apertava sua mo com fora, os olhos cheios de compaixo quando encontrou os dela.
         Pobre pai! De certo modo, foi ainda pior para ele.
         At aquele momento, no lhe contara nada sobre o seqestro nem sobre Nico.
         Como a aeromoa disse, no demoraram no aeroporto, pois outro avio j estava  espera. Mas, quando passaram pelo porto de embarque, o olhar de Sharon
foi atrado por duas manchetes: "Bando de Seqestradores Ir a Julgamento" e "Filha de Lorde Ingls Depor como Testemunha". No teve tempo de ler o resto, mas havia
algo a respeito dela ter sido a nica de suas vtimas a ser recuperada com vida.
         - Por que no me disse nada? - perguntou ao pai, quando j estavam instalados no avio.
         - No queria aborrecer voc. No  obrigada a comparecer, se no quiser. Na verdade, eu at disse a Dom.
         - Dom?
         - Dominic Hunter. Eu e o padrinho dele ramos scios. Acho que voc no o conhece.
         - No conheo mesmo. Mas o que ele tem a ver com o julgam?
         - Nada, a no ser que  um brilhante advogado. Discutimos sobre a hiptese de voc testemunhar e eu disse a Dom que no tenho nenhuma vontade de que voc
aparea.
         - Se eu no testemunhar, ser difcil conseguirem condenar o bando, no ?
         - No acredito que consigam. Voc  a nica testemunha. Mas no quero que se exponha mais a nenhum perigo.
         - Perigo? Est falando da organizao?
         - Parece que a maior parte dos membros est atrs das grades. A confisso de seus seqestradores levou a polcia a descobrir os que faltavam.
         Era incrvel como o pai parecia estar informado sobre o caso; muito mais do que a fizera acreditar. Comentou o fato e ele explicou:
         - Pedi para me manterem informado. E, naturalmente, as autoridades italianas receberam uma boa ajuda de nossa gente, embora tudo seja um grande segredo
diplomtico.
         - Imagino que tenho sorte porque meu pai possui segredos que o governo tem interesse em conservar. Se no fosse assim...
         - No pense mais nisso, querida. Talvez Dom tenha razo e sua presena no julgamento seja uma espcie de catarse para voc. Nunca me contou o que aconteceu.
         - Mas estou vendo que conversou muito com Dom - disse Sharon, contrariada. Mordeu o lbio ao ver a expresso do pai. - Sinto muito, papai, acho que no
estou sendo justa.
         - Eu me preocupei desesperadamente com voc. Apesar da diferena de idade entre Dom e eu, somos bons amigos e respeito muito sua opinio.
         No voltaram ao assunto at chegarem em casa, onde havia um  enorme envelope oficial, dirigido a ela.
         Como j imaginava, era das autoridades italianas. Sharon levou-o para o quarto, e, discretamente, o pai deixou-a em paz.
         Era estranho pensar como, no comeo de seu cativeiro, ansiara por aquele momento: o momento em que Nico seria mandado para a priso, em que ficaria privado
da liberdade. Mas agora...
         Sentada numa cadeira de balano, olhando para o vazio, os acontecimentos e as emoes que nunca conhecera antes e que nasceram naqueles dias voltaram 
sua memria. Olhou sem ver a carta em seu colo e, de repente, a verdade apareceu diante dela.
         Amava Nico! Por isso, no tinha conseguido se divertir na viagem de frias; por isso, permanecera tantas noites acordadas, tantos dias tentando afastar
a dor insidiosa do corao. O que erradamente pensava ser apenas desejo sexual, necessidade de experimentar o amor antes que sua vida lhe fosse tirada, tinha na
realidade sido uma maneira que seu corpo encontrara para que chegasse ao amor. Se fosse simplesmente a vontade de conhecer um homem, poderia facilmente ter se inclinado
para Guido. Ou Piero. Mas queria Nico, somente Nico.
         Tinha sentido algo diferente, ao conhec-lo na festa; j estava meio apaixonada quando o viu na praia; e, na atmosfera perfeita da casa da fazenda, o amor
havia desabrochado.
         Subitamente, soube o que devia fazer. No seria fcil, e sem dvida magoaria e chocaria o pai, mas amava Nico e estava disposta a lutar por ele, no importa;
o que tivesse feito no passado. Certamente, quando contasse s autoridades como ele havia salvo sua vida naqueles ltimos desesperados minutos, os jurados seriam
menos severos. Sabia que ele no estava envolvido nos outros seqestros. Mas no sabia que outras coisas tinha feito, pensou, em pnico. Nem sabia o que sentia por
ela. Mas isso no importava. Queria salv-lo com a mesma intensidade com que um dia quis que fosse castigado.
         Se o pai achou estranha sua determinao de comparecer ao julgamento, no disse nada. Sharon escreveu para as autoridades italianas, comunicando que testemunharia.
Estava resolvida a fazer seu apelo em favor de Nico no banco das testemunhas; dessa maneira, seria mais ouvida.
         Entretanto, no era nenhuma tola. Sabia muito bem que a imprensa no a pouparia, insinuando que de algum modo Nico a havia dominado, e todos os boatos sobre
ela renasceriam. Mas no se importava mais. Nico sabia a verdade.
         O julgamento seria dali a um ms, e no havia um dia em que no pensasse nele, nem uma noite em que no sonhasse que seus braos estavam em volta dela e
que ia acordar com a cabea apoiada em seu peito.
         A esteticista que cuidava de sua pele e de suas unhas tinha ficado horrorizada com sua aparncia. Os cabelos tosados sem nenhum cuidado tambm deixaram
a mulher impressionada. O jeito foi escolher um corte que realasse os cabelos anelados e a bela cor. Agora, preferia um estilo menos sofisticado, e o pai comentou
que estava ainda mais bonita. Mais madura e mais mulher, dizia ele, e Sharon no podia negar que estava mais suave e feminina.
         Mas, no ntimo, sir Richard tambm achava a filha mais frgil e vulnervel, e daria tudo para saber por que seus olhos estavam sempre dolorosamente triste.
No se aventurava, porm, a fazer perguntas: o relacionamento deles era precioso demais para correr algum risco.
         O pai quis ir para a Itlia com ela, mas Sharon recusou. De qualquer modo, ele no poderia mesmo ir, pois tinha que fazer uma viagem urgente at Nova York
na semana em que o julgamento comeava.
         No fim de semana antes de Sharon viajar, o pai voltou mais cedo para casa. Ela estava ocupada fazendo as malas. Escolhera com cuidado as roupas que vestiria
nas diversas vezes em que teria que se apresentar, pois sabia que estaria em evidncia. Sir Richard foi at seu quarto e parecia cansado e ansioso.
         - Sei que vai reclamar - disse, sem prembulos, - mas combinei que algum fosse a Roma com voc.
         - No, o inestimvel Dom? - perguntou Sharon, com ironia. Comeava a ficar cansada das constantes e entusisticas referncias dele ao amigo.
         Ignorando a ironia, o pai respondeu:
         - No. Um dos homens que invadiram a casa da fazenda. Ele tambm vai testemunhar.
         Tal testemunho talvez pudesse condenar Nico! Sharon sentiu-se tensa. Aquilo era uma coisa com a qual no contava. O homem de quem o pai falava provavelmente
era um dos S.A.S.
         Se era, no o reconheceu, mas lembrava-se de muito poucas coisas daquele dia. O homem era agradvel e educado, e, sentando-se ao lado dela, logo mergulhou
na leitura de uma biografia de Winston Churchill.
         Sharon s percebeu o quanto estava nervosa, quando o avio se preparava para aterrissar. Seu acompanhante disse, calmamente:
         - Deve ser muito penoso para a senhorita fazer isso. Especialmente, quando viveu tanto tempo to perto deles. Nessas circunstncias, sempre acontece uma
das duas coisas: ou nasce um intenso dio ou uma profunda dependncia.
         Ele a observava atentamente e Sharon desconfiou de que estava tentando adivinhar qual das duas coisas acontecera com ela. Logo descobrira ela pensou, cerrando
os lbios com deciso. Era verdade: sentia-se dependente de Nico. Sem ele, a vida no tinha realmente significado, embora fosse mais do que provvel que ele no
correspondesse a Seus sentimentos. Mas, se conseguisse a liberdade dele, se convencesse o pai ao ajud-lo, certamente Nico precisaria dela.
         Mexeu-se na poltrona agoniada. Era isso realmente o que queria? Uma gratido forada, uma dependncia, j que no podia ter mais nada? Queria mesmo domin-lo
assim? No o tinha amado, justamente porque era orgulhoso e independente? Ser que ele aceitaria a liberdade a esse preo? Ser que no a odiaria e desprezaria por
isso?
         Durante o curto vo, ela pensou e repensou, e no fim no chegou a nenhuma concluso. Tudo que realmente sabia era que no podia permitir que Nico fosse
para a priso sem ao menos tentar salv-lo. O que ia acontecer depois era uma deciso dele somente.
         Percebeu a seriedade com que as autoridades italianas encaravam o julgamento ao ver a guarda armada que a recebeu no aeroporto e a segurana com que o hotel
estava cercado. Seria muito difcil ajudar Nico. O governo italiano estava atrs de vingana e pretendia consegui-la com a ajuda dela. Teve certeza disso logo no
primeiro dia do julgamento, quando foi convidada a sentar-se para testemunhar como acontecera o seqestro.
         Na plataforma onde estava, via Olvia olhando-a ameaadoramente, Guido e Piero ao lado dela, e, atrs, outros que no conhecia. Mas Nico no estava entre
eles. O medo e o pnico comearam a crescer dentro dela. Onde estaria ele?
         As perguntas continuavam, e foi obrigada a responder a todas o melhor que conseguiu, sempre sem incriminar muito Nico, sua tenso aumentando a cada minuto,
enquanto procurava desesperadamente por ele na sala do jri. Ser que tinha conseguido escapar? No havia nada sobre isso nos jornais.
         A um certo ponto, foi forada a contar como Guido a havia atacado, e, de repente, a sala comeou a girar diante de seus olhos e sua voz foi se tornando
rouca e aflita. O juiz interrompeu o depoimento e mandou que lhe trouxessem um copo de vinho.
         - A essa altura, foi salva por um outro membro do bando? - perguntou o juiz, lendo a declarao que Sharon havia feito logo aps ter sido libertada. - Esse
homem... ele est nesta sala?
         Um funcionrio se adiantou e murmurou algumas palavras ao ouvido do juiz, que sacudiu lentamente a cabea.
         - Ah, sim - disse, sorrindo para Sharon. - Estava me esquecendo. Esse homem foi ferido durante o tiroteio e agora est alm da justia humana.
         A sala comeou a rodar desesperadamente, e ela vacilou. Nico estava morto... morto... Algum comeou a gritar; o homem que viera com ela no avio correu
em sua direo com uma arma na mo. Subitamente, a violncia explodiu. Sharon foi atirada no cho, uma faca passando rente  sua cabea. Comeou um tiroteio e, quando
afinal Sharon levantou a cabea, viu Guido morto no cho e o rosto amargo de Olvia.
         Olhando o corpo de Guido, ela se lembrou de Nico, mais uma vtima de todo aquele horror.
         O homem da S.A.S. virou-se para ela, perguntando se estava bem.
         - Dom tinha me prevenido para esperar uma coisa dessas - disse ele. Sharon, porm, no se importava com mais nada. Nico estava morto.
         Mas no podia deixar as coisas assim. Depois do que tinha lhe acontecido, no havia dvida de que deveria testemunhar. S fazia uma exigncia: que lhe contassem
as circunstncias da morte de Nico.
         Havia piedade nos olhos de seu guarda-costa, quando ela lhes disse que s sairia dali carregada, pois queria saber toda a verdade. Havia mais alguma coisa
naquele olhar; talvez, um sentimento de culpa.
         Quando tentou falar com um dos oficiais, encontrou a mesma barreira; o homem, falando um fluente ingls, se desculpou muito pela tragdia que por pouco
no acontecera.
         - Bastardi! Estes animais no merecem viver! Eles querem destruir a nossa civilizao. No merecem mesmo viver!
         Um dos guarda-costas interrompeu o monlogo do homem e fez as perguntas que Sharon no conseguia mais fazer, to nervosa estava.
         - A srta. Wykeham est preocupada com o homem chamado Nico. Pelo que sei, ele foi atingido e morreu durante o resgate.
         Seria imaginao dela, ou uma mensagem silenciosa passou de um para o outro? Houve uma ligeira hesitao, antes da resposta:
         - Sim, foi o que aconteceu.
         - Ele morreu na casa da fazenda? - Ela precisava saber toda a verdade, por mais dolorosa que fosse.
         - Sim, levou um tiro de um dos S.AS.
         - De um dos companheiros.
         As duas respostas conflitantes foram ditas ao mesmo tempo, e Sharon ficou chocada. Mas, antes que fizesse mais perguntas, o italiano se desculpou, educadamente:
         - Mas, naturalmente! Voc tem razo. Eu me enganei, ele foi mesmo atingido por um dos S.AS.
         Nico morto! Ela no podia acreditar. Ele, to forte, to cheio de vida! Sharon comeou a soluar incontrolavelmente. Os dois homens olhavam para ela, embaraados,
sem saber o que fazer.
         - Signorina, por favor...
         - O que aconteceu com o corpo dele?
         Silncio.
         - Ele... ele foi enterrado.
         - Onde  o tmulo?
         - Annimo, como um criminoso merece - respondeu o italiano, e aquilo foi o golpe final. Nico se fora, como se nunca tivesse existido, e no havia nem ao
menos um tmulo para marcar sua passagem pela terra.
         O homem da S.AS. parecia ansioso em tir-la dali, e ela desconfiou de que no queria que fizesse mais perguntas. Teve a impresso de que lhe escondiam alguma
coisa. Mas, o qu?

         O pai estava  sua espera no aeroporto em Heathrow. Quando viu o rosto abatido da filha, sua extrema fragilidade, como se a qualquer momento fosse se partir
em mil pedaos, no tentou abra-la. Sem lhe dar tempo para protestar, arranjou tudo para que seguisse para Surrey. Sharon no se lembrava da ltima vez que tinham
passado frias juntos no campo. Embora se esforasse para corresponder a alegria do pai, no conseguia.
         A lembrana de Nico no a deixava. S ao perd-lo, percebera a intensidade do amor que sentia. Cada minuto longe dele causava-lhe uma dor fsica. E o pior
de tudo era no saber nem ao menos onde tinha sido enterrado; nem podia ir chorar em seu tmulo.
         Esperando que o pai pudesse usar sua influncia para descobrir o lugar onde Nico fora enterrado, Sharon confidenciou seu sofrimento a ele. Mas, para sua
decepo, no pareceu disposto a ajudar.
         - Vai tornar tudo muito mais difcil para voc, querida.
         No entanto, Sharon teve a impresso de que a verdadeira razo no era essa. Novamente, bem no ntimo, desconfiou de que no haviam lhe contado toda a verdade.
Mas qual seria a verdade, ento?
         At mesmo seu louco desejo de ter concebido um filho de Nico lhe foi negado. O pai insistia para que reagisse e se interessasse novamente pela vida, mas
ela no tinha energia para isso. S para agradar sir Richard, quatro dias depois de terem chegado, aceitou a sugesto de irem almoar fora. Escolheram um restaurante
muito freqentado pelos habitantes do lugar.
         Sharon mal havia tocado na comida, quando viu um homem no outro lado da sala. Tinha os cabelos escuros ligeiramente ondulados, corpo forte, passos seguros
e decididos. Teve uma viso muito rpida dele pelas costas, mas foi o bastante para que o sangue sumisse de seu rosto, o nome de Nico chegando dolorosamente aos
lbios.
         - No pode ter sido Nico, minha filha.
         Mas havia um brilho estranho nos olhos do pai, que Sharon no conseguia decifrar: um misto de culpa e desespero. Quando ele se certificou de que ela estava
recuperada do choque, disse que precisava dar um telefonema urgente e voltaria logo.
         Sharon tentou manter a calma. O pai demorou um bom tempo, e, quando voltou, parecia seriamente preocupado.
         Saram do restaurante quase imediatamente. S ao chegarem em casa, ele conversou com ela:
         - Sei que voc me contou as coisas mais importantes do que aconteceu enquanto ficou em poder dos seqestradores - disse, com suavidade. - Sei como se sente
a respeito de Nico, mas guardou para si muita coisa, minha filha. Ser que ajudaria se conversssemos sobre isso?
         - Oh, papai! - Atirou-se nos pescoos dele, sua frgil calma desmoronando completamente. Entre soluos contou toda a histria, enquanto ele a escutava em
silncio.
         Quando terminou, sir Richard parecia muito angustiado e muito mais velho.
         - Minha pobre e querida filhinha, o que posso dizer? Diz que ama esse homem... No teria sido uma atrao agora intensificada pelo fato de perd-lo? Mesmo
que ele tivesse sobrevivido...
         - ...talvez no me quisesse? - perguntou, com tranqilidade. - No sei, papai. S sei que o amor e a vida sem ele no  vida.
         - Vocs foram amantes, no foram?
         Ela concordou, as lgrimas escorrendo pelo rosto bonito.
         - Sim. E no sei se vai acreditar, ele foi o primeiro. Nico no queria, mas eu insisti. E estou contente. Pelo menos, tive isso. E no venha me dizer que
ainda sou jovem e que acabarei encontrando outro. No vai haver... no pode haver ningum como Nico.
         - Ah, minha pobrezinha! O que posso dizer? Que o tempo vai curar?  verdade, e voc sabe. - Deu um suspiro profundo e pareceu ainda mais velho. - Sharon,
parece que eu julguei voc muito mal.
         - Porque no me achava capaz de amar? Ou porque Nico foi o primeiro? No posso culpar voc papai; sei que minha fama no  das melhores.
         - O que posso dizer? - ele repetiu, desolado.

         Sharon sentia que o pai a observava com crescente preocupao, enquanto viajavam de volta para Londres. Ela se entregou ao trabalho e at se matriculou
num curso de secretariado. O cansao fsico era a nica maneira que encontrava para conseguir dormir. E precisava do sono, porque, em seus sonhos, Nico estava sempre
presente, sempre apaixonado, sempre vivo..
         O Natal passou. Seus cabelos j estavam crescendo, mas ela continuava magra demais, frgil demais. Aquela dor aumentava, em vez de diminuir...
         No Ano Novo, o pai precisou ir novamente a Nova York. Na semana anterior  viagem, parecia extremamente nervoso. Quando Sharon perguntou por que estava
assim, respondeu que no gostava de deix-la sozinha.
         - Pedi a Dom que tomasse conta de voc - contou, evitando enfrentar o olhar dela. - Ele est na Sucia, a negcios, mas deve voltar na semana que vem. Ele
tem a chave do nosso apartamento.
         Agora estavam seguros em Londres, e Sharon queria dizer que no precisava trat-la como se fosse uma dbil mental, mas ele parecia to sombrio e preocupado
que no teve coragem.
         - Sharon, eu... - comeou, mas depois pareceu mudar de idia e se calou. Sem que ela entendesse a razo, murmurou, como se falasse consigo mesmo: - Que
Deus me perdoe pelo que fiz a voc, porque no consigo me perdoar. Se eu tivesse sabido...
         Pensou que ele achava que no seria raptada se no tivesse um pai rico e, portanto, nunca conheceria Nico.
         - Paizinho, no h nada a perdoar,  bem o contrrio. O que aconteceu com Nico  mais precioso para mim do que qualquer outra coisa que j me aconteceu
na vida. Embora eu nunca mais possa ser beijada e abraada por ele, minha vida ficou mais bonita depois do que aconteceu. Talvez voc esteja certo, e tenha sido
melhor dessa maneira. Pelo menos, posso me iludir, pensando que ele talvez me amasse...
         - Mas  claro que amava! - interrompeu o pai, impetuosamente. - Sharon, eu...
         Sabendo que ele estava querendo diminuir sua dor, ela tentou sorrir.
         - Por que diz que " claro que amava"? S porque sou sua filha?

         Sir Richard partiu na tarde seguinte. Sharon levou-o at o aeroporto, guiando o Rolls Royce com habilidade. Depois, em vez de voltar ao apartamento, foi
para o escritrio, refugiando-se no trabalho at ficar cansada demais para continuar.
         Durante muitos dias, entrava no escritrio s oito, no saindo antes das oito da noite, e chegava em casa to exausta que mal tinha nimo para comer...
Mas, gradualmente, seu corpo foi se adaptando  severa rotina e o sono tornou-se mais difcil.
         - Sharon, voc no pode continuar trabalhando assim - disse seu chefe ao chegar certa manh e encontr-la em sua mesa, olheiras profundas, expresso angustiada.
- Tire alguns dias para descansar. Isso  uma ordem! Voc no  til para mim, trabalhando feito um zumbi, como est fazendo no momento.
         Reconhecendo que ele tinha razo, Sharon concordou. O apartamento parecia estranho e vazio sem o pai, e, impulsivamente, decidiu ir para a casa de campo
em Surrey.
         Quando saiu de Londres: a neve comeava a cair, suave e insistente como seu amor por Nico. Sem que ela tivesse percebido, esse amor havia crescido, at
ser tarde demais. Tarde demais. As palavras mais tristes que existiam em qualquer lngua.
         Anoitecia quando chegou em casa, e, ao entrar, lembrou-se de que tinha que avisar o pai. Ele ficaria preocupado se telefonasse para o apartamento e no
a encontrasse. Ligaria para ele bem cedinho de manh: agora, estava cansada demais. Foi para a cama e dormiu quase imediatamente. E, em seus sonhos, Nico estava
sempre com ela.


         CAPTULO X

         Quando Sharon acordou; viu que uma grossa camada de neve cobria o jardim e os campos em volta. Como a casa s era usada raramente, o pai no tinha empregados
regulares, mas todas as semanas vinha algum para fazer a limpeza. Assim, Sharon s precisava ligar o aquecimento central..
         Resolveu ento telefonar para o pai, mas, desapontada, descobriu que o telefone estava mudo. O aparelho mais prximo ficava a quatro quilmetros, numa encruzilhada.
Sempre se perguntava quem o teria colocado ali, to longe de tudo. Sem poder fazer nada, resolveu ligar quando voltasse da cidadezinha onde teria que ir para comprar
comida.
         A neve estava mais alta do que pensava. Apesar do motor possante, o Rolls era um carro pesado, e seus braos doam quando chegou  cidade.
         Havia apenas uma mercearia e um aougue, mas Sharon conseguiu comprar tudo que precisava. Na volta, comeou a nevar outra vez. Justamente quando chegava,
ao cruzamento um carro, que vinha em sentido contrrio fez a curva depressa demais e derrapou. Sharon mal teve tempo de desviar para o acostamento. O outro motorista
passou por ela, no percebendo ou no se importando de quase ter causado um acidente. Mais calma, ela tentou levar o Rolls de volta  estrada, mas as rodas traseiras
derrapavam na neve. Com uma sensao de frustrao, notou que no conseguiria tir-lo dali; pior ainda, estava escorregando ladeira abaixo. Puxou o freio de mo
e saltou para avaliar a situao. Realmente, o jeito era deixar o carro ali e ir a p para casa.
         Pelo menos, poderia usar o telefone no cruzamento para ligar ao escritrio em Londres, pedindo que avisassem o pai onde estava. Telefonaria tambm para
a oficina da cidade.
         Levantou o fone e franziu a testa. O aparelho estava mudo. Era muito azar para um dia s! Cansada e com frio, pegou os pacotes no carro e comeou a andar;
no pela estrada, mas pelo campo, para cortar caminho.
         Ela se vestira sem grandes cuidados para ir at a cidade: cala de veludo cotel, botas e um casaco de peles que seu pai lhe dera no Natal.. Roupas quentes
e elegantes, prprias para compras em Knightbridge, mas inconvenientes para andar no campo a uma temperatura abaixo de zero. Antes de ter andado a metade da distncia,
sentia os ps entorpecidos e as pernas doloridas. O vento gelado batia em seu rosto, e as sofisticadas luvas de couro no conseguiam proteger-lhe os dedos. Apesar
de tudo, teimosamente continuava a andar, at avistar os muros de pedra do jardim de sua casa. Entrou por um portozinho lateral e se arrastou, exausta, at a porta
dos fundos.
         A casa estava abenoadamente aquecida, depois do frio l de fora: Sharon subiu para tomar um banho quente, mas antes experimentou novamente o telefone,
que continuava mudo, e levou as compras para a cozinha. Pelo menos, o Rolls estava no acostamento e no poderia provocar um desastre, e Bart, seu chefe, sabia onde
encontr-la. Pobre do pai! O Rolls era seu orgulho e alegria. S esperava que os telefones voltassem logo a funcionar para poder mandar consertar o carro antes dele
chegar de Nova York.
         O passeio tinha aberto seu apetite. Pela primeira vez desde o julgamento, pensava em comida com prazer. Mas, antes, o banho.
         Encontrou uma garrafinha de leo perfumado num armrio e derramou na gua, que ficou esverdeada e comeou a espumar. Entrou na banheira, relaxando o corpo
ainda gelado. Logo comeou a se lembrar de Nico, de como ele a abraara naquela ltima noite. Por mais que tentasse, aquelas lembranas a perseguiam. Saiu do banho
e se secou, esfregando vigorosamente a toalha pelo corpo, esperando abafar a sensualidade que crescia dentro dela. Depois, andou pelo, quarto, procurando roupas
limpas. Abriu uma gaveta onde encontrou roupas de vero.
         De repente, sua ateno foi atrada por uma camisa de homem. Lentamente ela a desdobrou, as lembranas dolorosas voltando. Era a camisa de Nico. Ela a encontrara
no quarto depois que tinham feito amor e a tinha vestido. Levou-a ao rosto, como se ainda retivesse o cheiro dele, seu corao cheio de dor. Sem pensar, vestiu impulsivamente
a camisa. Ficava grande demais, mas no importava. Tinha pertencido a Nico...
         Estava penteando os cabelos, quando escutou um barulho na porta da frente. Por um momento, a surpresa, deixou-a sem ao. Ento, largou a escova e desceu
correndo, esquecida de que vestia apenas a camisa, as pernas nuas. Provavelmente, algum que passava tinha visto a luz e, sabendo que a casa devia estar vazia, resolvera
investigar. Abriu a porta, as explicaes na ponta da lngua, e o pai passou por ela, o casaco coberto de neve, o rosto desfigurado de preocupao. Depois, chamou
algum que estava no carro.
         - Tudo bem, Dom. Ela est aqui, e salva. Puxa, Sharon, quando vi o Rolls, quase tive um ataque do corao!
         - Mas, papai, o que est fazendo aqui? Como sabia...
         - Dom ligou para mim de Londres para dizer que tinha ido ao apartamento e que voc no estava l. Ligou para Bart, que avisou que voc tinha vindo para
c. Eu j estava voltando, e ento viemos juntos. Tentei telefonar, mas no consegui.
         Seus olhos pousaram no rosto dela, e Sharon no precisou de nenhuma explicao para saber por que ele havia viajado toda aquela distncia simplesmente porque
no conseguira entrar em contato com ela pelo telefone. Uma terrvel ansiedade marcava seu rosto envelhecido.
         - Oh, papai! Seu amigo Dom no podia simplesmente aceitar a palavra de Bart de que eu estava aqui? Para que assustar voc desse jeito?
         - Ora, no culpe Dom. Eu tinha pedido a ele para no perder voc de vista. E devo dizer que, quando vi o Rolls...
         - Eu tinha esperana de deix-lo em ordem antes de voc voltar.
         Rapidamente, explicou o que havia acontecido. Escutou um barulho l fora, e s ento se lembrou de que tudo que vestia era aquela camisa, talvez bastante
decente, mas provocante tambm. Assim, subiu correndo, no querendo que o amigo do pai a surpreendesse naqueles trajes.
         Mas no conseguiu. Nem bem tinha alcanado o primeiro degrau, escutou a porta bater e sir Richard falar, com uma voz estranhamente tensa:
         - Tudo bem, Dom, no aconteceu nada com ela.
         - Fico aliviado em saber.
         Mas... ela conhecia aquela voz! Olhou para trs, o rosto to branco como a camisa que usava, os lbios querendo pronunciar um nome, mas tremendo tanto que
tudo que conseguiu foi dar um gemido. Depois, a vista escureceu. Ainda escutou o pai dizer:
         - Meu Deus, eu devia ter avisado a ela. Mas tive tanto medo de que fizesse alguma tolice...
         A seguir o vazio, nada alm da escurido e do medo de estar enlouquecendo. Porque o nome que seu pai chamava de Dom, certamente era Nico. E Nico estava
morto. Nico, que a tinha seqestrado e humilhado; Nico, a quem ela havia amado; Nico que simplesmente no podia ser um homem chamado Dom, que olhava para ela com
os mesmos olhos frios e que usava um elegante terno.
         - Papai?
         - Ele voltou para Londres.
         Nico! Ento, no tinha sido um sonho! Sharon abriu os olhos devagar. Estava deitada em sua prpria cama, na casa do pai, tudo conhecido e tranqilo; tudo,
menos o homem encostado  janela, o rosto na sombra, alerta e srio.
         - Acho que j  tempo de voc e eu termos uma conversa.
         A revolta explodiu dentro dela. Ele a fizera acreditar que estava morto; ele havia se disfarado em amigo de seu pai; ele tinha feito amor com ela e quebrado
seu corao, e agora dizia que precisavam conversar!
         - No fale comigo!
         Mais sentiu do que ouviu que ele se aproximava da cama, decidido.
         Sharon gostaria que no chegasse to perto; fazia com que se sentisse muito vulnervel e se lembrasse... Viu que ele estendia a mo para ela.
         - No encoste em mim! - protestou, com os lbios trmulos. - No chegue perto. Odeio voc!
         -  mesmo! - Abaixou-se ao lado da cama, e assim seus olhos ficaram no mesmo nvel dos dela.
         Sharon tentou se sentar, mas as mos fortes a obrigaram a continuar deitada. -  por isso que est usando a minha camisa! Foi por isso que tentou salvar
minha vida? E disse a seu pai que gostaria de ter um filho meu?
         - Papai no podia ter contado tudo isso a voc!
         - Mas contou. Vai me dizer que mentiu para ele?
         Sharon ignorou a pergunta.
         - Quem  voc?
         - Sabe quem sou eu: Dominic Hunter, afilhado do melhor amigo de seu pai. Mas ainda no respondeu s minhas perguntas.
         - Nem voc as minhas...
         - Nesse jogo, como em muitos outros, o poder d o direito. Portanto, me diga se era sincera quando falou aquelas coisas a seu pai.
         - Sim... - A palavra foi dita com visvel angstia. - Mas eu no falava de voc. Falava de um homem que no existe.
         - Existe, sim. Quer que eu prove?
         - No! - Esquivou-se e ele deu um sorriso amargo. - O que est fazendo aqui? No compreendo...
         - O que h? - ele perguntou, irnico. - Ser que o romance acabou, agora que sabe a verdade, agora que descobriu que sou um homem exatamente igual aos outros
e no um heri de fico? Voc ainda no sabe o que  amor. Ainda est vivendo num mundo de fantasia.
         Levantou-se subitamente e foi at a janela, dando as costas para ela, as mos nos bolsos do terno elegante.
         - Vim aqui hoje porque seu pai me pediu. Ele tem estado preocupado com voc, com medo de que...
         - ...eu me consumisse de amor por um homem que no existia?
         - Foi uma coisa que nenhum de ns dois quis. Olhe, ou nos sentamos para que eu lhe conte toda a verdade, ou saio j daqui e deixo voc com todo esse dio
e amargura em que est se agarrando com tanto ardor. O que decide?
         - Voc vai mesmo me dizer a verdade?
         Ele se virou para ela e Sharon viu o que no enxergara at ento: que parecia mais velho mais cansado; que havia uma tristeza em seu rosto que antes no
existia...
         - Voc  bastante mulher para ouvir a verdade?
         Sharon hesitou apenas um segundo. Por mais sofrimento que pudesse trazer, devia enfrentar os fatos.
         - Sim - respondeu com firmeza.
         - Tudo comeou h um ano e meio. Meus pais morreram quando eu ainda era adolescente e foi meu padrinho quem acabou de me criar. ramos muito ligados; ele
era excepcionalmente bom para mim, um homem compreensivo e profundamente dedicado. Havia decidido que eu herdaria seu escritrio de advocacia e que ele iria se aposentar
aos poucos. Era um timo pescador e estava ansioso para ter tempo para suas pescarias. Foi para a Itlia exatamente por isso. Eu devia ter ido junto, mas, no ltimo
minuto, apareceu um problema de trabalho. Logo que perdi meus pais, passei por momentos difceis; cheguei at a abandonar os estudos e me alistar no Exrcito. Reconheo
que foi uma loucura, mas me ensinou coisas muito teis sobre a vida, e que eu no aprenderia de outra maneira. Meu padrinho me apoiou demais e eu sempre quis pagar
a ele por sua dedicao. Queria tambm que soubesse que podia entregar o escritrio em minhas mos sem precisar se preocupar. Assim, ele foi sozinho para a It1ia...
e nunca mais voltou.
         Os olhos cinzentos dele estavam agora quase pretos.
         - Enquanto estava l, foi seqestrado. Recebi o pedido de resgate, mas a quantia era muito grande para ser conseguida em pouco tempo. Fiz o mximo: obedeci
a todas as exigncias. Finalmente, com a ajuda de seu pai, arranjei o dinheiro. Mas foi tarde demais.
         - Eles o mataram.
         - Sim. Tentei convencer as autoridades italianas a fazerem alguma coisa, mas foi tudo intil. Portanto, decidi tomar as coisas em minhas mos. Quando estava
no Exrcito, fiz parte dos...
         - S.A.S. - completou Sharon.
         - Sim. Ento, tentei me infiltrar no bando. As autoridades italianas sabiam quem eles eram, mas no podiam fazer nada sem ter provas. Eu os segui e vigiei
at conseguir saber o mximo sobre a organizao. Fui ajudado pelo fato de cada unidade trabalhar virtualmente isolada das outras e independente da organizao central.
Sabia que no seria impossvel me infiltrar e fingir, como fingi, que tinha siduo indicado para trabalhar com eles. Tudo de que precisava era uma isca tentadora.
         - Eu?
         - Discuti com seu pai e garanti a ele que seria seguro. O que eu no podia prever era que...
         - Eu fosse bastante idiota para me apaixonar por voc?
         Ele olhou para ela, o rosto impassvel..
         -  mesmo? Pensei que o nome do jogo fosse "experincia sexual". Viver um pouco, antes do fio da vida ser cortado. No. O que no previ foi que voc no
fosse a mulher sofisticada que a imprensa sempre comentava, mas uma ingnua que nem sabia como se proteger.
         - Ento, voc teve que fazer isso por mim? - perguntou, amarga e decepcionada. - Me enganou, me assustou, me seduziu?
         - Sou inocente da ltima acusao - disse ele, com crueldade. - Voc queria tanto quanto eu, por mais que agora tente mascarar seus motivos. De qualquer
modo, protegi voc o melhor que pude, sem levantar as suspeitas dos outros.
         - E todas aquelas idas  cidade? Eram para...
         - Me comunicar com seu pai e passar informaes para os outros do meu grupo.
         - Os homens da S.A.S.? -"perguntou Sharon, as coisas se esclarecendo rapidamente.
         - Sim. Agindo no oficialmente, embora com o consentimento das autoridades italianas.
         - Como conseguiu se infiltrar na organizao? Tornando-se amante de Olvia?
         - No. Mas se tivesse feito isso, no teria feito pior do que voc. E no venha me dizer que esperava me convencer a libert-la.
         Subitamente, eles eram dois estranhos se enfrentando, cheios de amargura e desconfiana. Sharon sabia por que estava to ressentida.
         "Mas por que ele parecia ressentido tambm? Por que seu pai tinha insistido para que viesse v-la? Por que simplesmente no queria nenhum envolvimento futuro
com ela e temia se ver forado a isso?"
         - No consigo compreender meu pai - comeou a falar, insegura, mas Dominic cortou.
         - Pedi a ele para no dizer nada. E tambm, como eu, ele achava que voc estava "amando" a idia de amar. Eu sabia que a intimidade forada em situaes
como aquela provoca efeitos estranhos. O que nem eu nem ele previmos foi que...
         - Que Guido ia tentar me violentar e que eu me atiraria em seus braos por causa disso? Pois bem, nem voc nem meu pai precisam ter medo de que eu repita
a dose.
         O que a feria mais do que queria admitir era que tudo havia sido calculado e planejado. Por mais que entendesse que ele queria acima de tudo vingar o padrinho,
simplesmente no suportava a idia de ser usada como uma isca indefesa!
         - Entende agora que, quando seu pai viu o carro na estrada, pensou que voc tinha se suicidado? Para no falar no que eu senti.
         - Alvio, eu acho - disse, amarga. - Que embaraoso para voc ter que enfrentar esses meus sentimentos indesejveis! O que aconteceu? Papai est pressionando
voc para fazer de mim uma mulher honesta? Pois no precisa se preocupar com isso. Eu no ia querer voc, nem que fosse o ltimo homem na face da terra!
         Deu as costas para ele, mas recebeu um verdadeiro choque, quando, sem que percebesse, ele atravessou o quarto e, segurando-a pelos ombros, forou-a a encar-lo.
         - Vamos apostar? - perguntou, com um risinho cnico.
         Sharon sentiu o sangue subir ao rosto e a respirao ficar subitamente difcil, quando Dominic beijou-a na boca. Precisou de cada grama de amor-prprio
para resistir ao louco impulso de se atirar ao pescoo dele, de abra-lo e implorar que fizesse amor com ela, que a amasse como o amava. Sim, ainda o amava. Nada
tinha mudado isso, nem mesmo saber que ele a enganara e que no ligava a mnima a ela. Mas pelo menos ainda tinha bastante orgulho para manter os lbios apertados
e aparentemente indiferentes sob os dele! S Deus sabia por que ele estava fazendo aquilo com ela.
         Quando finalmente Dominic desistiu, seus olhos estavam quase negros e indecifrveis. As unhas feriram as mos de Sharon, por causa da fora com que as fechava,
o corpo dolorosamente tenso pelo esforo sobre-humano de aparentar indiferena.
         - Vai embora agora? - perguntou, maravilhada com sua capacidade de parecer calma, enquanto por dentro o corao sangrava.
         - Ainda no. - Havia uma vaga ameaa nas palavras e algo em seus olhos que fez Sharon estremecer. Olhou aflita para a porta, mas para alcan-la teria que
passar por ele, e por nada no mundo se arriscaria a ser tocada novamente por aquele homem que a enlouquecia de paixo.
         - Parece que voc ainda tem uma coisa que me pertence - disse ele, apontando para a camisa que ela vestia.
         - Isso? Voc quer isso?
         - No s quero, como estou decidido a ficar com ela - disse, curvando-se para ela.
         Sharon pensou que ele ia comear a desabotoar a camisa e agarrou a gola, os olhos verdes muito abertos. Mas, para seu espanto, Dominic agarrou cada lado
da camisa e abriu de um golpe, os botes voando por todos os lados, expondo seu corpo nu.
         - Ento, quer a camisa? - ela perguntou, a voz revelando revolta e medo. Tirou-a, to zangada que nem mais vergonha sentia.
         No se importava de estar completamente nua. Fez uma bola com a camisa e atirou em cima dele.
         - Pois fique com ela. E nunca mais aparea na minha frente!
         Ele agarrou a camisa, quase distrado, os olhos fixos no corpo dela; um olhar que fez seu corao comear a bater mais depressa.
         - No pode imaginar o tormento que eu sentia, lembrando de voc assim e no podendo fazer absolutamente nada - murmurou. - Noite aps noite, dia aps dia,
at eu pensar que ia ficar maluco. Que estava maluco, porque nenhuma mulher podia ser to perfeita, to desejvel... Mas estava enganado. - Esticou os braos e agarrou-a
pela cintura. - Mesmo agora, voc no tem noo do que tivemos, tem? - disse, ternamente. - Como o que aconteceu entre ns foi raro; to raro que eu nunca tinha
sentido antes e nem quero mais sentir por mulher alguma. Aquela primeira noite em Roma...
         O sofrimento dela era insuportvel, como se o corao fosse explodir.
         - Por qu?
         - Porque quero voc para sempre. Fico desesperado s de pensar em outro homem possuindo voc, tendo voc assim.
         "E mais uma tortura que ele est inventando", pensou Sharon. "S pode ser!"
         - Me largue! Me largue! - pediu, aflita.
         - No, at ter feito isto.
         "Isto" foi um beijo que a inflamou a ponto de no conseguir pensar em mais nada; a no ser em sentir o corpo dele.
         - Sei que voc realmente no pode me amar - Dominic murmurou em seu ouvido. - Voc nem me conhece. Mas desejar voc e no ter voc junto de mim estava me
deixando alucinado. No consigo pensar direito desde que me deixaram sair do hospital...
         - Hospital? - Ficou tensa nos braos dele.
         - Acha que eu no teria vindo  sua procura antes, se pudesse? Eu dizia sem parar a mim mesmo que, para voc, tinha sido uma experincia, que eu era um
idiota imaginando que havia algo de duradouro naquilo. Mas estava enfeitiado. Quando me lembrava de Guido agarrando voc, tinha vontade de mat-lo. No podia me
perdoar por ter exposto voc assim ao perigo. Ficou no assustada, to... Meu Deus, quase enlouqueci, quando voc implorou para que a possusse! Eu dizia a mim mesmo
que no podia, mas...
         - Pensei que no me queria porque eu era virgem.
         - Nada disso! Eu desejava voc feito um louco. Desde o primeiro instante em que a vi, parece que entre ns aconteceu algo mgico. Mas depois, quando descobri
como era corajosa, como procurava dominar o medo e como era absurdamente ingnua e inocente, percebi que a amava. E me odiava pelo perigo que a estava fazendo correr.
Subestimei o desejo de Guido... e o meu. Houve momentos em que pensei em desistir de tudo, mas no podia, sem que voc corresse um risco ainda maior.
         - Ento, voc me ama? - perguntou Sharon, ainda sem acreditar. Depois, subitamente, lembrou-se de que ele havia falado sobre um hospital. - Me disseram
que voc tinha morrido - sussurrou, os olhos cheios de dor.
         - Para que Guido, Olivia e seus companheiros no viessem atrs de mim. Uma coisa perfeitamente natural. Seu pai tambm concordou, at depois do julgamento,
quando voc confessou tudo a ele. Ele me fez crticas amargas, isso eu lhe garanto, mesmo eu estando ferido numa cama de hospital. Levei o tiro que Olivia disparou.
         - Foi quando voc salvou a minha vida. Eu ia dizer isso, no tribunal. Eu ia contar que...
         - Sei tudo sobre isto. Meu Deus, voc sabe como envolver um homem!
         * Eu disse a papai que amava voc, mas nem assim ele me contou. - Havia muita dor em seus olhos e em sua voz.
         - O que ele podia fazer? Ns dois desconfivamos que voc estava s romantizando tudo. O que no  incomum nas circunstncias...
         - Voc pensou que era a nica a ter problemas. Eu sabia que o que sentia por voc no era s uma atrao fsica, mas prometi a seu pai que lhe daria tempo
para se ajustar  vida normal. De qualquer modo, estando no hospital, no teria condies de vir me atirar a seus ps. Mas estava to alucinado que, mesmo que seu
pai no falasse comigo, eu viria  sua procura. Levei um susto incrvel, quando cheguei ao apartamento e no a encontrei. Eu tinha tudo planejado: jantaramos tranqilamente
juntos, depois as explicaes e ento...
         - Ento, o qu? - perguntou, no ousando alimentar esperanas.
         - Ento, uma noite de amor em meus braos. Depois do que, no acredito que teria foras para recusar minha proposta de fazer de voc uma mulher honesta.
Nisso, pelo menos, eu me sentia seguro. Sabia como voc reagia ao meu toque. Puxa, levei um bocado de tempo tentando esquecer! Sabia que voc estaria em desvantagem,
no teria meios de comparar, mas cheguei a um tal ponto que seria capaz de usar qualquer arma s para no deixar que sasse de minha vida. Eu dizia a mim mesmo que
tinha que convencer voc de que o que houve entre ns era muito especial e que eu era o homem de sua vida. Estava disposto a fazer at chantagem.
         - Chantagem?
         Ele riu, apertando-a mais nos braos.
         - Sim, minha adorada. Aquele beb que voc tanto queria conceber.
         - Quer dizer que...
         - Quero dizer que a amo tanto que seria at capaz de chegar ao ponto de engravidar voc, s para ter certeza de que casaria comigo.
         - Pensei que esse era o meu papel - ela brincou.
         Dominic comeou a acariciar suas costas, beijar sua boca, e depois os dedos comearam a provocar os bicos dos seios, que endureceram imediatamente.
         - Voc me faz perder todo o autocontrole. Desejo voc, Sharon. Eu a amo e preciso de voc.
         - Tambm o amo. Tanto, tanto, que no posso esperar a hora de dormir para sonhar que est ao meu lado.
         Ao confessar isso, o rosto de Sharon ficou vermelho, e ele riu, triunfante.
         - Esse problema eu posso resolver muito bem, meu amor. Mas antes, tem que me prometer que vai fazer de mim um homem honesto e que vamos casar o mais depressa
possvel. Seno, vou contar a seus netos como voc me seduziu.
         Sharon sorriu, amando-o mais do que nunca, assim descontrado.
         Mas o riso morreu em seus lbios, quando levantou os olhos para Dominic e viu em seu rosto como a desejava.
         Estavam apaixonados, e ela o perdoava por todas as mentiras, todo o sofrimento. Porque ele lhe dera em troca muito mais... e o melhor ainda estava por vir.

         FIM

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